| CRÍTICAS | Terror na Auto-Estrada

A minha avó sempre me avisou para não dar boleia a estranhos. Normalmente, dizia ela, quem anda de dedo espetado à beira da estrada quer é levar-nos para um sítio escuro e violar-nos no rabo. Eu sempre segui escrupulosamente esse conselho, mas C. Thomas “Punyboy” Howell aprendeu-o da pior forma, ao dar boleia a um misterioso Rutger Hauer.

C. Thomas Howell só queria companhia para não se deixar de dormir enquanto atravessava o deserto norte-americano para ir entregar um carro no outro extremo do estado. Mas Hauer tinha outros planos: cortar-lhe as pernas, os braços e a cabeça. Por isso, vai persegui-lo de forma cruel, implacável e perturbadora.

Toda a gente coloca o rótulo de thriller em Terror na Auto-estrada, mas na verdade este é um filme de monstros. Aliás, até há muitas semelhanças entre este e Jeepers Creepers (jovens a serem perseguidos por um monstro carniceiro ao longo da auto-estrada, anyone?). A diferença é que o monstro de Terror na Auto-estrada é humano. Mas a forma como aparece e desaparece sem ninguém dar por ele, a capacidade quase sobre-humana de escapar e massacrar a polícia e a forma serena de como persegue as suas vítimas, que por mais que corram têm-no sempre no encalço (Jason Voorhees a fazer escola) não enganam ninguém: Terror na Auto-estrada é um filme de monstros.

O vilão criado por Rutger Hauer é mesmo o mais impressionante do filme. Talvez ainda inspirado pela impessoabilidade do seu ciborgue em Blade Runner – Perigo Iminente, Hauer faz de serial killer implacável e sangrento, cuja aura misteriosa em seu redor (não tem identificação, cadastro e ninguém sabe quem é) rima com o carácter simbólico do espaço onde se desenrola o filme: o incaracterístico deserto norte-americano, um não-lugar trespassado pela mítica route 66, metáfora intemporal da viagem, da mudança e do rumo ao desconhecido.

Terror na Auto-estrada é ainda um filme de grande economia de meios (forma simpática de dizer que teve um orçamento baixo) que, aliado ao thriller psicológico e ao ambiente meio minimalista, faz lembrar outro filme do género: o primeiro Exterminador Implacável. Apesar de só ter tido este one hit wonder, o realizador Robert Harmon tira ainda meia-dúzia de coelhos da cartola (como a cena em que C. Thomas Howell encontra um dedo nas batatas-fritas do seu hamburga), sempre a preferir a sugestão ao grafismo extremo e com um tom negro pouco habitual nos anos 80.

Em última instância, Terror na Auto-estrada ainda ensaia algo sobre o valor da vida humana e a validade e justeza da máxima olho por olho, dente por dente, antecipando numa década o final de Sete Pecados MortaisTerror Na Auto-estrada é um filme de culto dos anos 80, uma das obras-primas de Rutger Hauer (vénia) e um McBacon que não merecia o remake ordinário de 2007.

Título: The Hitcher
Realizador: Robert Harmon
Ano: 1986

2 thoughts on “| CRÍTICAS | Terror na Auto-Estrada

  1. Este filme também faz lembrar o primeiro longa-duração de Steven Spielberg, o Um Assassino pelas Costas (1971). A diferença é que neste o monstro pesa mais de uma tonelada e anda a 4 rodas. Abraço.

Responder a dermot Cancelar resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *