| CRÍTICAS | A Arte de Vencer

Apesar de muitos a verem como uma dança, a capoeira é mesmo uma arte marcial. Uma luta de defesa, criada pelos escravos no Brasil para se defenderem e escaparem dos cativeiro e mascarada de dança para não dar muita cana. Até ao final da década de 30 do século passado, a capoeira continuava a ser proibida por lei, até Getúlio Vargas levantar a proibição. Desde então – e especialmente nas últimas décadas – tem sido utilizada como ferramenta de educação não-formal, espalhando-se por todo o mundo e tornando-se inclusive património da humanidade pela Unesco.

A Arte de Vencer é uma espécie de filme não-oficial sobre essas possibilidades da capoeira – luta, dança, ritmo, tocar instrumentos, falar português… -, mas através do filtro do cinema xunga dos anos 80. Ou seja, muitas gangues mal vestidas, heróis de tronco nu, problemas resolvidos ao pontapé, tiradas filosóficas de chinela e, claro, uma tipo boazona que serve de recompensa ao herói do pedaço.

Vamos então por partes. Mark Dacascos (esse mesmo, o de John Wick 3) é um ex-Boina Verde que, depois de uma temporada no Brasil, regressa a casa. Ao procurar emprego na antiga escola, descobre que esta se tornou num pardieiro controlado por gangues. Depois de despachar uns miúdos que parecem já ter 40 anos com os seus golpes de capoeira, que aprendeu durante o serviço militar, o seu antigo professor, Geoffrey Lewis (esse mesmo, o pai do Van Damme em Duplo Impacto), convence o corpo docente a contrata-lo e a introduzir a capoeira para estimular os alunos.

Eis então uma versão do Mentes Perigosas, mas com capoeira em vez das cantigas do Bob Dylan. Mark Dacascos vai agarrar nos piores 12 alunos da escola e em duas montagens musicais transforma-os em a) atletas de capoeira de primeira, b) cidadãos exemplares e c) alunos super-interessados e motivados, que vão influenciar o resto da escola a também o serem. Claro que depois é preciso pôr os pontos nos i com a gangue local que, pasme-se, o seu líder também é um mestre de capoeira. Qual é a probabilidade?

Os anos 80 estão cheios de filmes iguais a este, que se limita a seguir a sua fórmula vencedora sem inventar muito. Afinal de contas, em equipa que se ganha não se mexe. Por isso, A Arte de Vencer é inesperadamente sólido, mesmo que pareça que já o tenhamos visto antes. Pelo meio, ainda mata sem piedade um dos miúdos da escola apenas para motivação dos heróis do filme, o que não deixa de ter a sua piada.

O principal trunfo de A Arte de Vencer é mesmo a publicidade que faz à capoeira. Sheldon Lettich, esse realizador-fetiche dos filmes de Jean-Claude Van Damme, não deixa os créditos por mãos alheias e utiliza os termos correctos, as canções e mete toda a gente a falar português. Ou seja, quem não ligar muito a esta arte marcial se calhar vai achar o Double Cheeseburger demasiado grande para a fome que tem.

Título: Only the Strong
Realizador: Sheldon Lettich
Ano: 1993

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *