| CRÍTICAS | Grey Gardens

Grey Gardens, um dos marcos do documentário, teve o condão de libertar de vez o género do espartilho formulaico das cabeças falantes, introduzindo uma maior liberdade estilística. Os manos Maysles já tinham dado outro safanão no género uns anos antes, dessa vez no documentário musical, com Gimme Shelter, o clássico dos Rolling Stones sobre o concerto gratuito em Altamont que encerrou simbolicamente o flower power e que captou em câmara, inclusive, o assassinato de Meredith Hunter às mãos de um Hell Angel, mas foi com Grey Gardens que o documentário passou a ser chão que dava outras uvas.

Nos últimos tempos, o documentário ganhou uma nova vitalidade (e visibilidade), para o qual também contribuiu decisivamente a Netflix. Habituamo-nos a ver documentários sobre pés decepados (olá Finders Keepers), sobre concursos de cócegas (como estás, Tickled?) e outras bizarrarias e já não achamos estranhos. E passámos a ver os documentaristas a passarem tempo com os seus retratados e a investigarem os casos com afinco, sem terem que ser o Robert Flaherty no etnográfico Nanuk, O Esquimó.

E pensar que Grey Gardens nasceu por acaso. Albert e David Maysles foram convidados pelos Kennedy para irem fazer um documentário sobre a família Bouvier, da parte de Jacqueline, mas durante a pesquisa acabaram por encontrar uma tia e uma prima que eram bem mais interessantes do que qualquer outra coisa. Assim, mudaram-se de armas e espingardas para a mansão de Grey Gardens, onde as duas viviam em situação de abandono, tanto físico quanto mental, despegadas completamente da realidade, apenas com a companhia dos gatos, dos guaxinins e outra bicharada que lhe ia destruindo a casa.

Edith Beale e a filha, a Litthe Edith, foram em tempos aristocratas ricos e famosos (Edith Beale até foi uma cantora com relativo êxito), mas à medida que foi caindo na miséria e no esquecimento, foram-se refugiando num mundo de ilusão. Por isso, vemo-las vestidas de forma… alternativa, com a mãe refugiada na cama enquanto coze maçarocas de milho ou comem comida de gato, alimentam os guaxinins no sótão e acumulam lixo, qual episódio do Hoarders. Lembramo-nos desse primo de Grey Gardens que é The Queen of Versailles, sobre outra família caída em miséria e em plena negação.

Os Maysles limitam-se a entrarem na casa das Beale e a filmarem, deixando-as falar. Ou melhor, discutir, porque é a única coisa que sabem fazer, discutir. E gritar, claro. E lá vamos vendo a filha a culpar a mãe por a) nunca ter casado, b) não ter tido uma carreira e c) continuar a viver ali, enquanto a mãe lamenta por aquilo a que chegou. Grey Gardens pode ser um pouco voyeurista, mas é a mesma atração do abismo daquelas duas aves raras que nos mantém colados ao ecrã até ao final. E, no fim, estamos a comer o McBacon como se fossemos também parte daquela família. Uma família disfuncional, é certo, mas não por isso deixa de ser uma família.

Título: Grey Gardens
Realizador: Albert Maysles & David Maysles
Ano: 1975

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