| CRÍTICAS | O Pai

Todos os que seguem o Anthony Hopkins nas redes sociais já temeram pela sua saúde mental, nem que tenha sido apenas uma vez. Por isso, fazer um filme como O Pai, aos 83 anos, em que interpreta um homem em perda de faculdades para a demência, é uma enorme demonstração de vitalidade. E uma chapada de luva branca a gente como eu, que acharam que ele estava cheché, quando viram o tal vídeo.

Em O Pai, adaptado da peça de teatro homónima pelo próprio encenador (Florian Zeller, que assim se estreia na cadeira de realizador), Hopkins é um velhinho que vive com a filha (Olivia Colman) e o marido desta (Rufus Sewell), a quem a memória começa a atraiçoar. Por isso, nem sempre sabemos o que é real ou o que é fabricado na sua frágil mente, até porque as cenas vão-se repetindo por vezes, mas com diferentes intervenientes.

Já vimos outros filmes sobre o Alzheimer, como O Meu Nome É Alice, aquele filme em que Julianne Moore se ia desvanecendo até ficar cada vez rarefeita. No entanto, a forma como Florian Zeller a aborda a perda de faculdades mentais é através do recurso aos mecanismos do filme de género, nomeadamente o suspense e o thriller psicológico. Ou seja, a sobreposição de realidades temporais, sem dar ao espectador pistas que revelem qual delas é a verdadeira, ou personagens que mudam de identidade.

O grande trunfo aqui é que… todas essas realidades temporais são verdadeiras e falsas em simultâneo. Não é um gato de Schrödinger, mas é antes uma forma extremamente inteligente de Zeller nos fazer mergulhar nesta fragilidade, como se fosse uma experiência imersiva. E não, nenhum de nós vai querer envelhecer depois de ver o filme. De certa forma, O Pai é um autêntico filme de terror.

Em paralelo a este belo exercício de escrita, Florian Zeller tem ainda ao seu dispor outra ferramenta fortíssima: o próprio Anthony Hopkins, que saca aqui um brilharete. Ele é, simultaneamente, um homem em pleno das suas faculdades e em total perda de sanidade mental, que tanto maltrata a sua enfermeira (Imogen Posts) como a apaparica, ou que tanto agradece à sua filha como a desrespeita logo de seguida. Aliás, Olivia Colman é um excelente contraponto, sempre à beira de cair no chão e se partir em mil e um pedacinhos, tal é a sua fragilidade emocional perante o comportamento errático do pai. O Pai pode ser um Oscar bait, mas é um Oscar bait muito bem feito. E um Le Big Mac difícil de digerir, aviso já.

Título: The Father
Realizador: Florian Zeller
Ano: 2020

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