| CRÍTICA | Por Um Fio

De noite todos os gatos são pardos, já diz a sabedoria popular.
É um facto de que é de noite que os fantasmas saem à rua. Está escuro, a visibilidade é reduzida e as sombras tomam conta de tudo. Nicolas Cage vive essencialmente à noite, porque é paramédico numa ambulância de emergência, e está habituado a eles. Além do mais, é cada vez mais assombrado pelos fantasmas das pessoas que não consegue salvar, nomeadamente uma adolescente de 18 anos – Rose (Cynthia Roman) -, que lhe morreu nas mãos numa noite de neve há algumas semanas atrás.

Por Um Fio é o filme em que Nicolas Cage enfrenta os fantasmas de Nova Iorque, sejam eles reais, figurados, simbólicos ou metafóricos. Afinal de contas, todos eles povoam o cinema inicial de Martin Scorsese, nomeadamente os de raiz judaico-cristã de culpa. Este é, portanto, um filme de reencontros. É o filme em que Scorsese se reencontra com Nova Iorque e que se encontrou pela última vez com o argumentistas Paul Schrader. É, portanto, uma espécie de sequela não oficial de Taxi Driver, mas com um paramédico em vez de um taxista.

Scorsese flirta com o film noir – tanto formalmente, com as sombras, a noite e o narrador sempre presentes, como em conteúdo, com os seus anti-heróis e toda uma colecção de esqueletos no armário -, à medida que Nicolas Cage conduz por Hell’s Kitchen como se estivesse num road movie. Era o filme perfeito para Cage explodir nos seus acessos de loucura, mas surpreendentemente é um dos eus registos mais contidos. Excepto quando tem uma trip má com uns comprimidos marados.

É também de noite que os marginais ganham centralizado na cidade que nunca dorme. Por Um Fio é uma vertigem de Nicolas Cage pela violência, pela pobreza, pela drogaria e por outras marginalidades, alimentado pelo álcool (e, ocasionalmente, alguma droga), que o ajudam a dormir o pouco que consegue dormir e a continuar, noite após noite, ao volante da sua ambulância. Scorsese não tem vergonha de dialogar com esta violência mais gráfica, seja numa cena em que um traficante cai e fica espetado sobre uma grade, seja num parto de urgência com um nado morto.

Ao seu lado, os parceiros sucedem-se e nenhum deles é, propriamente, um exemplo para se seguir. É uma espécie de viagem amoral pela noite de Nova Iorque, que anos depois Nicolas Cage haveria de repetir, mas pela mão de Werner Herzog, em Polícia Sem Lei. Ao seu lado passam John Goodman, o odiável Tom Sizemore e Ving Rhames, a fazer de Samuel L. Jackson em Pulp Fiction, e que tem o melhor momento de humor negro de todo o filme. Por sua vez, Patricia Arquette representa a ligação de Cage com o mundo real, mas também com o mundo das drogas, numa relação sem julgamentos. Ao contrário de Taxi Driver, em que Robert de Niro era um anjo vingador que vinha recolocar a ordem n caos com uma espada de fogo, Nicolas Cage é aqui um anjo apaziguador, que perdoa.

Por Um Fio surgiu na pior fase de Martin Scorsese, quando era visto como um realizador esgotado e velho e que, por isso, teve uma fraca recepção. Hoje em dia é pouco recordado, apesar de continuar a ser um dos seus melhores filmes. E um dos que faz uma súmula de alguns dos principais temas recorrentes do seu corpo de obra. Aqui, gosta-se muito do McBacon. E costumamos recomenda-lo sempre que se fala de Marty.

Título: Bringing Out The Dead
Realizador: Martin Scorsese
Ano: 1999

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