| CRÍTICAS | A Vingança do Comando

A coisa mais difícil de acreditar em A Vingança do Comando é que este não é um filme norte-americano. É que a bajulação aos Estados Unidos é tanta, que duvidamos vários vezes de nós próprios se vimos bem e se pusemos o filme certo a dar. A Vingança do Comando é uma produção italiana nas Filipinas, numa altura em que o cinema xunga naquele país do outro lado do mundo era mato, que não só tenta replicar o modelo do filme de acção anglo-saxónico, como tenta ser mais americano que os americanos.

Há uma cena em que o sargento Michael Ransom (o mítico Reb Brown, autêntica instituição do cinema xunga) chega a uma aldeola no Vietname e os locais, ao perceberem que ele é americano, não só depositam nas suas mãos todas as esperanças da sua salvação, como as mães querem que ele case com as suas filhas e os homens alinham-se para lhe chupar a pila. A bajulação é tanta que a única coisa que conseguimos sentir é vergonha alheia.

A Vingança do Comando é um war movie e, como tal, começa por se limitar a acumular em quantidades industriais aquilo que a guerra mais tem: tiros e mortos. Assim, a primeira hora é de uma barulheira infernal, com tiroteios que nunca mais acabam e um bodycount incalculável, que nos deixa com uma dor de cabeça terrível. Os soldados americanos despejam saraivadas de metralhadora e os vietcongs saltam em mortais encarnados, cada um mais atlético que outro. O sargento Michael Ransom faz então parte do comando de elite, o Strike Comando (grafado no título de abertura como um jogo de Spectrum da altura), que tem a missão de armadilhar um paiol inimigo. Mas o impaciente coronel Radek (Christopher Connelly), que vemos logo que tem alguma na manga, decide não esperar mais e rebenta com aquilo tudo antes do tempo, dizimando o batalhão.

Ransom sobrevive miraculosamente, recupera na tal aldeola evangelizada por um padre francês e descobre que há russos infiltrados a liderar os malvados dos comunistas vietnamitas. Por isso, quando regressa aos Estados Unidos, em vez de confrontar o coronel Radek, pede-lhe para regressar e tentar capturar o mauzão Jakoda (Alex Vitale). Tudo isto para aí em cinco dias e ao sexto já ele está de volta à selva filipina… perdão, vietnamita, onde encontra a aldeia dos seus amigos dizimada, se bem que o jovem com quem travou amizade ainda está semi-consciente, apenas o tempo suficiente para travarem um último diálogo sobre… a Disneylândia. Altamente surreal. A partir daqui, Ransom só vai gritar (e, às vezes, despejar o carregador da metralhadora aleatoriamente em coisas ao calhas enquanto grita) e a dor de cabeça regressa.

Depois Ransom é capturado por Jakoda e deixa de ser o Rambo 2 – A Vingança do Herói e passa a ser o Desaparecido em Combate 2. A Vingança do Comando começa então a ser finalmente interessante, com Jakoda a torturar o herói de todas as maneiras possíveis e imaginárias. Mas o americano é tão forte, mas tão forte, que além de nunca quebrar, ainda faz a namorada do russo apaixonar-se por si(!). Depois escapa, é atraiçoado pelo coronel Radek novamente, regressa aos Estados Unidos e vai finalmente confronta-lo (com mais uma cena de muita gritaria gratuita e tiros de metralhadora aleatórios), mas descobre que este fugiu. Começa então A Vingança do Comando parte 3, três filmes num só, agora com a tentativa de encontrar e prender o traidor e infiltrado Radek. À medida que vai avançando o filme vai melhorando, o que não significa que se torne em algo de memorável. Quer dizer, este Happy Meal não é 100 por cento inútil, já que muitas vezes serve de mau exemplo.

Título: Strike Commando
Realizador: Bruno Mattei
Ano: 1986

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