| CRÍTICAS | Bruscamente no Verão Passado

Continuo sem saber quem foi o principal responsável por O Mundo a Seus Pés, se o Orson Welles, se o Joseph Mankiewicz. Mas depois de ver Bruscamente no Verão Passado fiquei a saber que só um deles conseguiu dar cabo de uma peça do Tennessee Williams, adaptada para o cinema por Gore Vidal e com protagonistas como Katharine Hepburn, Elizabeth Taylor e Montgomery Clift. Bruscamente no Verão Passado tinha tudo para ser um filmão, só lhe faltou um realizador. 

A sinopse é agradavelmente estranha: uma ricaça de Nova Orleães (Hepburn) decide doar um milhão de dólares para um nova ala do hospital psiquiátrico e, em troca, o principal médico do departamento (Clift) só tem de fazer uma lobotomia à jovem sobrinha (Taylor) da ricaça. O motivo também é muito prosaico: numas férias europeias (no Verão passado), Sebastian, o filho da ricaça, acabou morto, comido vivo por um grupo de selvagens e jovens pedintes que, dias antes, ele havia seduzido para satisfazer os seus desejos carnais. A sobrinha assistiu a tudo.

Há aqui muito para desempacotar. Uma mulher que usa o seu estatuto económico e social para ter aquilo que quer, um jovem que usa o estatuto económico da sua família para ter aquilo que quer, uma jovem que perde “a honra” numa violação e não só é responsabilizada por isso como isso serve de mote para uma vida de expiação dos pecados dos outros, um sistema de saúde mental punitivo, uma lógica colonial no uso sexual que Sebastian dá às suas vítimas, a forma como Sebastian acaba por se tornar numa vítimas das suas vítimas, literalmente comido vivo, um jovem cirurgião branco que ganha a vida a fazer lobotomias e aceita a responsabilidade de salvar a pobre e louca donzela por quem se apaixona, a pulsão de uma ameaça de homossexualidade que é, neste contexto, tão violenta como qualquer outra coisa imaginável…

Tudo isto está lá num texto magnífico de Tennessee Williams e, no entanto, tudo isto é esbanjado num filme que nunca sabe muito bem ser um filme, preso entre o teatro e o cinema, entre o contar e o mostrar, que não consegue encontrar o seu lugar. E é uma pena. Katharine Hepburn tem uma prestação perfeita e a forma abrupta como passa de pobre viúva a malvada e manipulava bruxa é digna de panteão. Elizabeth Taylor aguenta-se à bronca e, com uma direcção mais cuidada (como teve em Gata em Telhado de Zinco Quente ou American Splendor, por exemplo), tinha tido ali um dos papéis da sua vida. Montgomery Clift, faz aquilo que lhe compete, uma espécie de Tom Hardy que anda por ali com ar cool, como se ele próprio tivesse sido lobotomizado. 

Verdade seja dita, Clift tinha sido vítima de um acidente de viação brutal dois anos antes, do qual escapou com vida graças a Elizabeth Taylor. O resultado foi uma vida cheia de dor e uma dependência a analgésicos e álcool que nunca mais largaria. Reza a história que Taylor exigiu contracenar com Clift ou não aceitaria o papel. E reza a história que, perante as dificuldade de Clift, o realizador Mankiewicz foi de tal forma cruel que, no último dia de filmagens, Hepburn chegou-se ao pé dele e, confirmando que não haveria nada mais a filmar, cuspiu-lhe na cara e nunca mais lhe falou.

A História acabou por dar razão a Hepburn. Não só pela forma como Mankiewiecz tratou Clift mas também pela forma como tratou aquele guião. A certa altura, a personagem de Elizabeth Taylor diz somos todos crianças num vasto jardim de infância tentando escrever o nome Deus com peças com o alfabeto errado. É preciso ter um talento muito especial para desperdiçar uma linha destas e Mank é a pessoa com esse talento. Quando, já no auge emocional do filme, o ecrã é dividido e mostra ao mesmo tempo uma Elizabeth Taylor visivelmente emocionada num monólogo espantoso e um flashback que nos vai mostrando o que ela está a contar, temos um perfeito exemplo do maior problema deste filme: é um filme que não sabe ser cinema e não é teatro. E acaba por tentar ser ambas as coisas mal. Como não existem aqui hamburgas de tofu, daquelas que não são carne nem peixe, fica-se pelo Double Cheeseburger.

*por Diogo Augusto

Título: Suddenly, Last Summer
Realizador: Joseph L. Mankiewicz
Ano: 1959

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *