| CRÍTICAS | Titane

Em todos os textos que se tem escrito sobre Titane (e não têm sido assim tão poucos quanto isso, especialmente depois de ter vencido a Palma D’Ouro deste ano e ter feito da realizadora Julia Ducournau apenas a segunda mulher a ganhar tal galardão) tem-se feito o paralelismo com Crash e, nem sempre, com Christine, o Carro Assassino. De facto, é inevitável o paralelismo com ambos os filmes, mas em todas elas a comparação pecou sempre por redutora. É que Titane é muito mais que isso e tão mais que isso.

Falar de Titane é falar-se, em primeira instância, da sua história. Começamos por conhecer Alexia quando ela é pequena (Adèle Guigue), momentos antes de um acidente que há de a levar a viver para sempre com uma chapa de titânio na cabeça. A partir desse exacto momento, Alexia há de criar um vínculo, que chega mesmo a ser carnal, com os automóveis. Daí a porta a abrir-se para com o filme de Cronenberg e, consequentemente, para o seu body horror, ao mesmo tempo que reflecte sobre as relações entre o corpo e a máquina.

Saltamos para o presente, já com a Alexia crescida (incrível Agathe Rousselle), dançarina exótica em salões de exibição automóvel e… serial killer nos tempos livres. Esse apetite pela morte, pela destruição e pelo niilismo é complementado pela relação com os automóveis, nomeadamente com um, que lhe há de fazer um filho(!). A partir daí, o corpo de Alexia entra em mutação. Ao mesmo tempo que a barriga cresce, a vagina e as mamas vertem óleo de carro, gerando uma criatura grotesca.

Com um bebé(?) na barriga e a polícia no seu encalço, depois de um frenesim de sangue que levou a um rol de mortes não planeadas, Alexia rapa o cabelo, parte a cana do nariz e faz-se passar pelo filho desaparecido de um bombeiro (Vincent Lindon) traumatizado com essa perda e que também tem uma relação perigosa com o corpo – é viciado em esteróides, que injecta diariamente até ficar com o corpo marcado. Esse salto para a androginia é o primeiro passo numa outra reflexão, esta sobre as questões de género, que hão de ter outros momentos, especialmente na forma como o quartel de bombeiros se enche de festas cheias de tensão homo-eróticas.

Há portanto muita coisa a acontecer em Titane e os seus detractores irão argumentar que todas elas são apenas pegues pela rama, em rasastes muito sensacionalistas e gratuitas. No entanto, a forma como Julia Ducornau filma todas elas, com a maior segurança do mundo, consegue convencer-nos do que quer que seja. Por outras palavras, podemos nem sempre perceber o que estamos a ver, mas não nos vamos esquecer nunca do que vimos.

É essa segurança que faz de Titane o filme que é, um objecto provocador, com personalidade própria, que nos consegue imergir na sua própria criação. Para isso, conta com o auxílio precioso de Agathe Rousselle, que dá literalmente o corpo ao manifesto. Ela mata, ela rapa o cabelo, ela tenta o aborto ao enfiar coisas na vagina, ela sangra óleo de carro, ela esconde as curvas femininas sob um disfarce andrógino… Não há nada que ela não faça e todos esses gestos marcam uma relação com o corpo, que é o tema central de Titane. Acho eu, talvez seja outra coisa. A verdade é que este é um filme que pode significar coisas bem diferentes (e distintas) para qualquer pessoa que o veja. E se muitos o irão detestar, outros vão adorar, dando-lhe palmas de ouro ou McRoyal Deluxes.

Título: Titane
Realizador: Julia Ducornau
Ano: 2021

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