| CRÍTICAS | Poeta

Na cena inicial de Poeta, o filme de Darezhan Omirbayev que venceu a última edição do LEFFEST, na redação de um jornal (onde se inclui o protagonista do filme, o poeta Didar (Yerdos Kanaev)), acompanhamos um longo diálogo sobre o estado das línguas no mundo e do cazaque em particular. Os intervenientes, gente ligada às Letras, está apreensiva com o futuro das línguas em geral perante a uniformização do inglês, num mundo em globalização galopante. Por isso, percebemos logo por aí que Poeta vai ser um filme sobre a palavra e o seu poder, mas também acerca daqueles que a dominam: os poetas e os escritores.

Poeta decorre então em três período temporais distintos, que se cruzam numa malha simples de seguir. A principal é esta, a do poeta Didar, que se passa no Cazaquistão da actualidade. Numa altura em que as pessoas leem cada vez menos e que, por isso, os livros vêm-se a tornar cada vez mais pequenos, Didar é convidado para uma sessão de leitura numa outra cidade, o que, por momento, se lhe assemelha a um relampejo de esperança no futuro das Letras. Esse convite irá culminar numa tragico-comédia, onde riremos de nervoso miudinho para não chorar.

Na outra realidade temporal recuamos até ao século XIX, mais particularmente até ao tempo de Makhambet Otemisuly, o grande herói e poeta nacional do Cazaquistão. Makhambet está para o Cazaquistão assim como um Sergei Parajanov está para a Arménia. Ele, que foi um poeta com uma estreia ligação à cultura e tradição local, assumiu-se também como um opositor do colonialismo russo e foi isso que levou à sua morte. E foi isso que fez com que, durante 100 anos, a sua campa permanecesse quase abandonada, no meio do deserto. A terceira realidade temporal de Poeta passa-se precisamente nos anos 60 do século passado, quando um grupo de entusiastas procurou não só dar dignidade aos seus restos mortais, como recuperar a sua memória.

Assim, mais do que um biopic de Makhambet Otemisuly, Poeta é um filme que utiliza a história do seu herói nacional como um símbolo e uma metáfora para a cultura e política actual do Cazaquistão. No mesmo país que demorou 100 anos a ir encontrar os restos mortais desse seu símbolo e mais 10 até o enterrarem de uma forma digna, existe um poeta que edita livros, mas que poucas pessoas parecem ler. Mas será que não basta uma o fazer para que a missão do livro esteja cumprida (como aquela fã que é a única a atender à sessão de leitura de Didar e que confessa como os seus livros lhe salvaram a vida?)? A discussão é infinita e Poeta não pretende dar qualquer tipo de resposta, apenas estimular a conversa.

Poeta é assim um filme simples, filmado sem grandes fogachos e fogo de artifício, que se refugia mais na palavra do que nas imagens, mantendo-se fiel à sua mensagem. E, para nos envergonhar a todos que nos apoiamos na nossa visão eurocêntrica e esperamos sempre uma carta ideia de exoticidade em cinematografias distantes vindas de países dos quais sabemos pouco (ou nada), Poeta recusa com grande categoria qualquer ideia de etnografia. Surpresa total: o Cazaquistão é um país tão normal quanto qualquer paisagem deste nosso canto ocidental, com metros, grandes lojas e até estafetas da Bolt a entregar comida de bicicleta. Aliás, Poeta até tem um momento de publicidade colocada, altamente patrocinado pela Cadillac. Assim, o Double Cheeseburger é uma forma de descobrir um país novo através das suas palavras e imagens, ao mesmo tempo que se projecta na nossa realidade e nos lembra pela enésima vez que as ideias e as vidas são iguais, seja aqui seja no Cazaquistão.

Título: Akyn
Realizador: Darezhan Omirbayev
Ano: 2021

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