
Um biopic sobre Donald Trump a estrear poucas semanas antes das eleições presidenciais norte-americanas soa a aproveitamento muito capitalista. Mas ei, ninguém faz filmes para perder dinheiro, não é? Além disso, Trump tem todos os ingredientes que o tornam numa figura apetecível para um filme destes: os admiradores amam-no de forma obsessiva e os detratores odeiam-no com todas as forças. A verdade é que ninguém lhe fica indiferente.
The Apprentice – A História de Trump é um filme dividido em duas partes muito bem balizadas. A primeira passa-se nos anos 70 e conta a forma como Donald Trump construiu o seu império imobiliário, ao mesmo tempo que cortava as amarras autoritárias do pai. Neste processo, um homem torna-se fundamental na sua vida: Roy Cohn, um advogado perverso e manipulador, tão polémico quanto o Trump actual. É ele que vai ocupar, simultaneamente, o lugar de mentor e o de figura paternal, incutindo-lhe 3 pilares basilares na forma de encarar a vida e os negócios:
1. Atacar, atacar, atacar
2. Não admitir nada, negar tudo
3. Reclamar sempre vitória
Onde é que eu já vi isto?

A segunda parte passa-se nos anos 80 e conta como Trump consolidou e expandiu esse império. Ao mesmo tempo, o monstro ultrapassou o criador e consumiu-o: Trump tornou-se ainda mais cruel e amoral que Cohn, acabando por o espezinhar enquanto esse definhava fisicamente, mas também publicamente.
De uma parte para a outra há um salto que não é só temporal. O realizador Ali Abbasi captar na perfeição, com a sua reconstituição de época irrepreensível, a diferença entre a América dos anos 70 (num pós-Vietname pós-traumático, em reconstrução (física e psicológica)) e a dos anos 80 (eufórica, com dinheiro a rodos e o sentimento de impunidade de que tudo era possível). No entanto, são duas metades desiguais, em que a primeira é claramente superior. Apesar de nunca fazer uma reflexão particularmente profunda acerca da psicologia do biografado, Ali Abbasi ainda vai deixando umas pistas importantes nessa primeira parte. Contudo, na segunda, assistimos apenas a um encadeado de episódios, mais ou menos significativos, nesse período na vida de Trump.
Seja como for, um biopic destes, tão actual e pertinente e com os seus representados ainda vivos (ou, pelo menos, a maioria deles), torna-se central o trabalho dos actores. E se Sebastian Stan é um óptimo Donald Trump, controlando os maneirismos para não cair na caricatura exagerada que reconhecemos na personagem (e Trump é, provavelmente, o tipo mais caricaturado da última década), o destaque vai todo para o Roy Cohn de Jeremy Strong, que, de certa forma, é o verdadeiro protagonista de The Apprentice – A História de Trump. Criticado por uns, por diabolizar Trump, e criticado por outros tantos, por o humanizar, The Apprentice – A História de Trump consegue, no entanto, manter-se no meio, com tudo o que esse tem de positivo e negativo. Um sólido McChicken, que vai na perfeição com este tempo.

Título: The Apprentice
Realizador: Ali Abbasi
Ano: 2024
