| CRÍTICAS | Lavagante

Lavagante é um manuscrito póstumo de José Cardo Pires (que é, de longe, um dos três melhores romancistas de sempre que já nasceram neste país) que foi aparecendo de quando em vez desde 1963. António Pedro Vasconcelos estava a adapta-lo ao cinema quando faleceu, em 2024, deixando o projecto (e o reencontro com o produtor Paulo Branco) por terminar.

Só que, desta vez, Lavagante chegaria ao fim mais rapidamente. Branco convocou Mário Barroso e, tal como acontecera com João Botelho e A Corte do Norte, este levou o projecto a bom porto, bem a tempo de celebrar o centenário de Cardoso Pires.

Lavagante é um texto onde se encontram vários ecos da obra de José Cardoso Pires. Talvez por isso nunca tenha sido completado a sério pelo autor, servindo antes de inspiração para outros dos seus trabalhos. O filme é assim sobre o Portugal amordaçado do Estado Novo (e não nos podemos esquecer que Cardoso Pires escreveu Dinossauro Excelentíssimo), mas também um retrato de uma certa ideia de Portugal real (e Francisco Froes é mesmo acusado de ser um marialva, piscadela de olho directa a O Delfim, manual derradeiro sobre o marialvismo nacional). Além disso, é uma história formatada sobre o policia clássico, algo que Cardoso Pires aprimoraria em Balada da Praia dos Cães. E há ainda todas as referências cinéfilas, já que a cinefilia sempre foi uma ideia cara ao autor (assim como ao próprio Mário Barroso). E nem podemos deixar de reparar na presença de Rui Morrison, que tem estado praticamente em todas as adaptações cinematográficas de José Cardoso Pires.

Coincidências e fait-divers à parte, Lavagante é então um policial à antiga, enformado na tradição do film-noir clássico e, por isso, rodado num preto e branco de alto contraste. É certo que é um estilo que rima bem com as tramas do Estado Novo e com o Portugal cinzentão de então, com todos os seus esqueletos no armário e os dizeres nas entrelinhas para fugir à censure e perseguição da Pide, mas também é certo que é uma opção estética algo preguiçosa e cliché.

Além disso, Lavagante é a história do amor obsessive de Froes e Júlia Palha, ele médico com amizades primas ao PCP e ela uma autêntica femme fatale, protegida por um Diogo Infante da Pide. É fácil de perceber que António Pedro Vasconcelos havia encontrado a sua nova Musca, fazendo dela s sucessora de Soraia Chaves.

Com uma reconstituição de época impecável, Mário Barroso parece que não quis arriscar em atraiçoar o texto de Cardoso Pires e o argumento de Vasconcelos. Assim, limita-se a ser meramente ilustrativo, não deslumbrando, mas também sem se comprometer. Lavagante é um Double Cheeseburger, deixando no ar a ideia de que podia ter ido um poucochinho mais longe.

Título: Lavagante
Realizador: Mário Barroso
Ano: 2025

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