| CRÍTICAS | Tron – Ares

Ao ver Hollywood a insistir em prolongar o franchise Tron, apetece-me apanhar o avião, ir até lá, abanar os executivos pelos ombros e gritar-lhes na cara de quem nem o Tron original era propriamente bom. É claro que o filme tem o seu lugar na história, mas mais por ter sido um pioneiro no digital, destacando-se mais pelo seu aspect visual do que pelos conteúdos narrativos e dramáticos.

Mas temos que dar o braço a torcer e reconhecer que estes são tempos pertinentes para apostar neste franchise. Tron – O Legado também não foi particularmente brilhante, mas em plena era digital, não só a tecnologia atingiu o ponto em que é possível concretizar Tron como fora imaginado, como tematicamente é altamente pertinente falar da inteligência artificial e da sua regulação.

Tron – Ares é a história de uma entidade de inteligência artificial que ganha consciência da sua condição e que sonha em se tornar humano. Jared Leto é então Ares, uma versão sofisticada e agressiva do ChatGPT, criado por Evan Petters, o sobrinho do vilão do filme original. Jared Leto começa a ganhar algum amor próprio e pelo próximo quando a rival do seu criador, Greta Lee, demonstra alguma compaixão por si. Por isso, é que sempre que termino uma operação no ChatGPT nunca me esqueço de agradecer, pois sabe-se lá o que pode vir a acontecer no futuro.

Esta versão high tech do Pinóquio é assim a milésima variação do rapazinho de pau que queria ser humano, mas com muita masturbação digital, o Jared Leto sempre com poses crísticas (e cada vez mais irritante, imaginamos que é assim que ele se apresenta sempre lá no culto dele, naquela ilha na Croácia) e a música imponente (e omnipresente) de Trent Reznor. O realizador Joachim Rønning imagina um mundo virtual que é uma versão um pouco mais estilizada do Matrix, mas é no mundo real que ocorrem os grandes confrontos, sequências de acção que atiram Leto contra Jodie Turner-Smith (a sua sucessora, depois dele se emancipar e abandonar o software de Evan Petters) e grandes cenas de destruição, num mundo em que parece não haver polícia ou autoridades.

Com tanta tecnologia, Tron – Ares tem que perder ainda muito tempo em ser altamente descritivo, para nós percebermos o que se está a passar. E, claro, não perde uma oportunidade para manter os elementos reconhecíveis do Tron original, como os discos que utilizam como armas, os rastos coloridos que as motas deixam e, claro, o obrigatório cameo de Jeff Bridges, apenas a capitalizar o crédito acumulado. Tudo junto é muito pouco para uma sequela que se queria respeitável e capaz de lançar mais filmes na série. Jared Leto começa é a habituar-se demasiado a estes Happy Meals, quer-me parecer.

Título: Tron – Ares
Realizador: Joachim Rønning
Ano: 2025

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