| CRÍTICAS | They Look Like People

Se podemos dizer que a pandemia da covid-19 trouxe algo de bom foi uma maior consciencialização da saúde mental. É certo que continua a ser um tabu, com muito por fazer, mas já existe uma maior sensibilização para o tema.

No cinema, a saúde mental tornou-se num tópico mais ou menos recorrente nos últimos anos, especialmente enquanto metáfora para outras coisas igualmente pertinentes. O terror tem sido o género a mais utilizar essa ferramenta. No entanto, há um pequeno filme que passou despercebido e que é, provavelmente, o que melhor aborda a saúde mental per si. O título: They Look Like People.

O título dá logo a entender que o filme recorre a signos do terror para construir um thriller psicológico assente nas questões da saúde mental. They Look Like People remete-nos logo para Eles Vivem, de John Carpenter, em que a humanidade era controlada por répteis mascarados de humanos. Só que aqui a coisa não é assim tao directa.

Wyatt (MacLeod Andrews) ouve vozes que o alertam para uma guerra que há de começar em breve, contra uns seres que infectam os homens como um vírus. Ele, que é um dos escolhidos – a predestinação é um dos sintomas mais comuns da esquizofrenia – é assim aconselhado a preparar-se para ter que matar os seus amigos e dados. As visitas ao psicólogo e a abstinência do álcool e das drogas não parece estar a funcionar.

Wyatt aparece na casa do seu amigo de infância (Evan Dumouchel) sem aviso e este rapidamente percebe que ele precisa de ajuda: o noivado terminou e parece não ter sequer um tecto para passar a noite. A parte da saúde mental há de vir mais tarde. Dumouchel rapidamente o acolhe sobre a sua asa, até porque ele próprio também precisa de ajuda: aparentes problemas de auto-estima que o levam constantemente a ouvir cassetes motivacionais e dificuldades em conduzir a paixoneta por uma colega de trabalho (Margaret Ying Drake).

They Look Like People é um slow burners daqueles que cozinha em lume brando, enquanto assistimos aqueles dois a dirigirem-se para o abismo. A Wyatt já sabemos que não há fuga possível à medida que a paranóia – outro sintoma comum à esquizofrenia – continua a aumentar. A grande questão é se Evan Dumouchel tem estrutura emocional para absorver aquele golpe ou se vai tudo descambar num qualquer tipo de gore.

They Look Like People irá desiludir os fãs do terror mais gráfico, ao mesmo tempo que concretiza um bonito filme sobre a amizade, humanizando a doença mental e procurando retirar-lhe todo o peso que carrega. E funciona a vários níveis de interpretação: talvez o título esteja a referir aqueles que sofrem de distúrbios mentais e que se assemelham a qualquer pessoa que vemos na rua; ou então talvez queira mostrar que o poder da amizade e da confiança supera qualquer doença. O McRoyal Deluxe ninguém lhe tira. Já a interpretação fica a cargo de cada um.

Título: They Look Like People
Realizador: Perry Blackshear
Ano: 2015

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