
Toda a gente sabe quem é Hamlet, mesmo sem nunca terem visto a peça de Shakespeare (ou um dos vários filmes, seja o do Laurence Olivier ou o do Mel Gibson), tal é a forma como faz parte da memória popular colectiva. A mais longa das tragédias de Shakespeare é também uma das mais complexas tematicamente, deburçando-se sobre a vida do príncipe da Dinamarca que vê o tio matar o pai, casar-se com a mãe e assumir o trono.
O que menos pessoas sabem é que Hamnet era também o nome do filho de Shakespeare (numa altura em que parece que era normal grafarem-se os mesmos nomes de diferentes formas), que morreu precocemente quando tinha apenas 11 anos. Por isso, o que Hamnet faz (adaptando ao ecrã o livro homónimo de Maggie O’Farrell), é dramatizar como essa perda e trauma influenciou o Bardo a escrever a sua obra-prima. E dizemos dramatizar porque tudo é especulação, até porque a peça é claramente influenciada pela lenda escandinava de Amleth (aquela que também deu origem ao O Homem do Norte, de Robert Eggers.
Apesar de tudo, a realizadora Chloé Zhao (que regressa ao “cinema de autor” depois de ter sido convocada para a linha de montagem da Marvel) não ancora o seu filme ao folclore do maior escritor das letras inglesas. Aliás, o próprio apelido só se ouve na entrada para o último acto do filme. E mesmo a sua esposa responde aqui pelo nome de Agnes, como também aparece escrito muitas vezes, se bem que a versão mais conhecida é a de Anne Hathaway (nada a ver com a atriz com o mesmo nome. Ou será que tem?). O objectivo é óbvio: afastar o peso dessas figuras e manter o filme com os pés na terra, associado a pessoas comuns e ordinárias.

Quem também tem os pés da terra é precisamente Agnes (óptima Jessie Buckley), de tal forma que a populaça local até diz que ela é filha dum espírito da floresta. Se fosse nos dias de hoje, Agnes seria anti-vacinas, andaria sempre descalça e, no verão, iria ao FMM, em Sines. Will (Paul Mescal) apaixona-se loucamente por ela e, mesmo com a família ao não aprovar o casamento, acaba por juntar os trapinhos, mudar-se para o campo e ter três gaiatos. Até que começa a ter cabin fever e chega a um compromisso mais ou menos tácito com a esposa: alugar uma casa em Londres, onde poderá escrever, criar e ter uma vida produtiva, e passar temporadas em ambos os lados.
A primeira metade de Hamnet é assim um relato mais ou menos expressionista dessa vida familiar, com as suas particularidades, com aquele estilo muito próprio de Chloé Zhao, que é meio cósmico. Aliás, Agnes até poderia ser muito bem uma personagem dos Eternos. Depois, acontece a tragédia e o filme ganha outra ressonância, mas essas ondas de choque acabam por não ser assim tão impactantes como deveriam ser, até porque a primeira parte acaba por ser mais inconsequentemente do que seria de esperar. Bem mais forte são as cenas em Jessie Buckley dá à luz os gémeos ou aquela em que Hamnet falece: longas, duras, os gritos aflitivos de Buckley a ficarem a ecoar nas nossas mentes… A experiência da vida e da morte a assumirem-se como os pilares de um filme algo etéreo e espiritual.
Era fácil Hamnet cair no melodramalhão de faca e alguidar, mas Zhao é mais elegante do que isso. No entanto, também não é o papa-prémios que se poderia pensar que poderia ser (esse é A Paixão de Shakespeare), é mais algo no campo do Double Cheeseburger. E para quem vier à procura de algo mais sobre a obra de William Shakespeare, mais vale nem começarem e irem logo direitos ao Anónimo.

Título: Hamnet
Realizador: Chloé Zhao
Ano: 2025
