| CRÍTICAS | Ressurreição

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Raramente sabemos o que acontece com as personagens após o final das histórias. A maior parte delas termina com o habitual e viveram felizes para sempre, mas nós, pessoas exigentes, não nos satisfazemos com essa generalidade. Quem é que acredita que a Cinderela ficou com o príncipe encantado para sempre sem nenhum caso extraconjugal ou crises matrimoniais? Ou que a Pocahontas e o John Smith juntaram os trapinhos sem qualquer choque cultural e a aceitação das famílias?

Ressurreição conta o que se passou depois em uma das mais famosas histórias de todas. Aliás, é tão famosa que se convencionou apelida-la da mais bela história de todas. Falo, obviamente, da historia de Jesus Cristo e da sua paixão, mas mais especificamente do que se passou após a sua crucificação. Portanto, Ressurreição é uma espécie de sequela não oficial de A Paixão de Cristo, começando exactamente onde termina o filme de Mel Gibson.

Conhecemos a generalidade dos factos. O nazareno que se auto-intitulava rei dos judeus foi condenado à crucificação, por um Pilatos que tentou lavar as mãos de qualquer responsabilidade, e acabou pregado a dois pedaços de pau e trespassado por uma lança no flanco. Passado dois dias, ressuscitou do túmulo onde fora encerrado. A novidade é que Ressurreição vai contar esta história do ponto de vista de um romano, o braço direito do próprio Pilatos, Clavius (Joseph Fiennes), que é um não-crente e, portanto, não se podia interessar menos por catolicisses e cristianices.

Ressurreição é, portanto, um policial e um filme de detectives. Clavius vai interrogar testemunhas e suspeitos em busca do cadáver desaparecido e seguir pistas que expliquem o que se passou. E é nesta espécie de Chinatown na Judeia que o realizador Kevin Reynolds monta um thriller whodunnit, que traz um input novo (e neutro) à tal história da ressurreição de Cristo.

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Andamos então a tentar perceber se aquele ressuscitou mesmo ou se foi tudo um golpe de propaganda política, quando Kevin Reynolds decide ele próprio tomar uma posição e dar uma guinada ao filme. Clavius descobre então o que se passa, encontra Jesus e, de repente, Ressurreição é um novo filme, totalmente diferente, abusando da iconoclastia (como qualquer filme bíblico) e confundindo propaganda cristã com redenção e descoberta da fé. Nada contra isso, apenas preferíamos o outro filme, o de detectives.

Kevin Reynolds, o homem que em tempos assinou esse desastre (também ele de proporções bíblicas) chamado Waterworld, tem aqui uma obra simpática, de uma economia de meios meio xunga, que também colhe crédito por isso mesmo. É bem capaz de, com este McChicken, sacar o seu melhor trabalho da carreira.mcchickenTítulo: Risen
Realizador: Kevin Reynolds
Ano: 2016

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