| CRÍTICAS | Eusébio, a Pantera Negra

O Sport Lisboa e Benfica acaba de alcançar um inédito tetra no seu palmarés e, como tal, nada como recordar a vida de Eusébio da Silva Ferreira, o Pantera Negra, maior futebolista português de todos os tempos e um dos embaixadores de Portugal no estrangeiro. A sua carreira confunde-se com o Benfica, pelos seus 15 anos de ligação, e em 1973, com o seu joelho a fraquejar e a idade já a pesar nos ombros, o seu percurso de águia ao peito aproximava-se do fim. Momento ideal então para imortalizar o Pantera Negra no grande ecrã, com um documentário luso-espanhol encomendado a Juan de Orduña, o Leitão de Barros espanhol, um filme tão bom que pouca gente se lembra que ele existe.

Uma das principais mais-valias de Eusébio, a Pantera Negra é a found footage. Fala-se muito de Eusébio na televisão e na internet, mas normalmente aparecem sempre as mesmas imagens a ilustrar: meia dúzia de lances em jogos contra o Sporting ou o Porto, o resumo da final da Taça dos Campeões contra o Real Madrid (aqui em resumo alargado) e os golos no Mundial de Inglaterra, em 66, culminado sempre com o golo de cabeça ao Brasil e uma corrida até ao meio campo (aqui também em resumo super-alargado). No entanto, a acrescentar a isto, encontramos em Eusébio, a Pantera Negra uma final contra o Sporting da Taça de Portugal, um jogo contra o Porto e vários golos e lances a equipas mais pequenas, que permitem a quem não teve a felicidade de ver Eusébio jogar (eu, por exemplo) de comprovar que era uma força da natureza com um pontapé-canhão.

Eusébio, a Pantera Negra mistura documentário e ficção, lembrando outro filme do género dessa altura: o seminal Belarmino. No entanto, qualquer semelhança entre este e o filme de Fernando Lopes é pura coincidência. E até parece mal estar a comparar os dois. No entanto, é obrigatório fazer esse exercício, não só porque ambos são biopics sobre heróis populares, underdogs da cultura popular portuguesa, como romperam definitivamente com o molde épico dos filmes de época do cinema português, tão comuns durante o Estado Novo, com Leitão de Barros como aríete de serviço.

No entanto, Eusébio, a Pantera Negra não foge muito ao panfletário, já que é um puro exercício de propaganda. Mas propaganda benfiquista, entenda-se. Misturando imagens de arquivo com reconstituições, Juan de Ordeña convoca o próprio Eusébio e a mulher, Flora, para narrar e protagonizar a sua própria história, desde os campos pelados de Lourenço Marques até à consagração mundial, num jogo de despedida no Estádio da Luz, cheio de estrelas internacionais. No entanto, é tudo tão confrangedor que percebemos porque se tornou num filme esquecido através dos tempos: os actores são maus e as cenas dignas de um teatrinho de escola, cheias de zooms despropositados e um problema qualquer no tripé, que parece estar sempre a cair.

Quanto aos momentos mais marcantes da vida de Eusébio, poucos estão lá. O “rapto” ao Sporting e a viagem para Lisboa sob nome falso, por exemplo, são completamente omitidos, desabafando apenas sobre o imbróglio: isto é muito confuso. Deveras esclarecedor. No entanto, mal assina pelo Benfica, Eusébio vai logo a uma casa de meninas ver um striptease. Curioso… Depois os auto-elogios vão aumentando cada vez mais, com um aparte para explicar uma das dezenas lesões que lhe desfizeram o joelho, com imagens em plena sala de operações e tudo.

Curioso documento histórico sobre um dos homens mais famosos de Portugal, Eusébio, a Pantera Negra é para colocar ao lado da música que os Sheiks dedicaram ao King, já que o tema de Vum Vum faz parte da banda-sonora do filme. Infelizmente, sabe apenas a um Happy Meal, mas é um típico caso em que os olhos comem mais do que a barriga. E ao que consta vem aí o primeiro filme de ficção sobre Eusébio, depois do recente documentário, Eusébio – História de uma Lenda.Título: Eusébio, a Pantera Negra
Realizador: Juan de Orduña
Ano: 1973

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