| CRÍTICAS | Okja

Joon-ho Bong ganhou uma viagem para Hollywood com o sucesso internacional do The Host – A Criatura, onde foi vítima de bullying com o subvalorizado Expresso do Amanhã. Farto das exigências dos grandes estúdios, o sul-coreano aceitou a carta branca e a liberdade criativa do Netflix para se atirar a Okja. No entanto, o filme acabou por estar envolto em polémica em Cannes, por causa das regras de distribuição e exibição do festival. Tudo fait-divers que não interessam para nada.

Em Okja, Joon-ho Bong volta às criaturas, mas desta vez é uma benigna – uma super-porca gigante (mistura de hipopótamo com o cão de História Interminável), criada com o intuito de alimentar a sobrepopulação futura da Terra e que uma menina da Coreia do Sul rural cria como se fosse parte da família. E que depois tem que resgatar. Não admira que Steven Spielberg seja um nome referido vezes sem conta quando se fala de Okja. Afinal, a super-porca de Joon-ho Bong é uma espécie de prima afastada dos extraterrestres amigáveis de Spielberg. E, além disso, é uma peça fulcral no desenvolvimento da família, enquanto instituição-chave do equilíbrio da protagonista, a jovem  Seo-Hyun Ahn.

A Disney também é uma referência mais ou menos óbvia de Okja, pela humanização que faz da porca, em tudo semelhante à antropormofização que se tornou imagem de marca dos estúdios do Rato Mickey. Contudo, é impossível não pensar antes em Miyazaki, não só pela proximidade geográfica da oorigem de Joon-ho Bong, mas também pelas semelhanças entre esta sua criatura e a de O Meu Vizinho Totoro. O que já não é uma referência assim tão imediata é a de Wes Anderson, mas a sua influência está lá também, especialmente nas personagem burlesca de Jake Gyllenhaal (completamente irreconhecível no papel de pateta, bem longe do registo que nos tem habituado utimamente) e num cinema tipo retro-formalista-colorido.

Mas será Okja apenas um corta e cola de influências, referências e apanhados? Obviamente que não. Além da mensagem ecologista que passa, numa crítica feroz ao mundo capitalista em geral e à indústria da carne em particular (que vai fazer as delícias dos vegetarianos mais ferozes, apesar de também dar a sua bicada irónica neles, especialmente no activista que não come e está sempre em fraqueza para reduzir ao máximo a sua pegada ecológica no planeta), Okja é uma comédia para toda a família, com um espírito feelgood que nos anos 80 surgia quase automaticamente e que, entretanto, parece ter vindo a ficar afogado por entre a sisudez dos actuais blockbusters. Só não se percebe muito bem é de onde sai a banda-sonora dos balcãs à Kusturica.

Mas não se pense que é um filme ligeiro ou uma qualquer xaropada de domingo à tarde. Basta ver a cena em que [spoiler alert] a super-porca é violada por outro super-porco e que é a coisa mais angustiante que vamos ver no grande ecrã este ano (desde a Monica Bellucci em Irreversível?). Ou então a associação que não conseguimos deixar de fazer entre os porcos na linha para o matadouro e os actuais refugiados que esperam por vistos em campos improvisados por essa Europa fora (nem sequer vou mais longe e mencionar A Lista de Schindler). Okja é um filme com muito para dar. E um super-porco destes daria um McRoyal Deluxe tão saboroso…Título: Okja
Realizador: Joon-ho Bong
Ano: 2017

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