| CRÍTICAS | Madame Hyde

Estamos habituados a ver Isabelle Huppert em papeis fortes e dominantes. Por isso, a primeira coisa que surpreende em Madame Hyde é a forma como a francesa se apaga e eclipsa, na pele de uma frágil professora de física, numa escola dos subúrbios de Paris.

Malik (Adda Senani) é o seu bully-mor. Lá fora, as pernas deficientes e o andarilho excluem-no dos círculos populares, especialmente o dos rufias que se baldam à escola para cantar rap. Por isso, dentro da sala de aula, Malik lidera a rebelião, há que é a única altura em que está numa situação de poder. Até que um dia, durante uma tempestade, um raio atinge o laboratório ond Huppert está a trabalhar e trespassa-a. A partir daí, a sua atitude altera-se, tornando-se numa líder na sala de aula e através da física conquista Malik para o seu lado.

Madame Hyde é o realizador Serge Bozon a brincar com os géneros cinematográficos, porque apesar de ser, na sua génese, um filme de liceu (do estilo Mentes Periogosas, mas sem o Coolio), não se limita a isso. Até porque à noite, quando Isabelle Huppert se transforma numa tocha humana (com efeitos-especiais melhores do que os dos filmes do Quarteto Fantástico), Jacques Tourneur é claramente a inspiração, com as deambulações nocturnas a lembrarem as de A Pantera, mas sem o preto e branco.

Em entrevista de promoção ao filme, Bozon mencionou Pedro Costa e Pedro Pinho. São dois nomes que identificamos claramente neste seu jogo de referências e influências. Do último – e da sua A Fábrica de Nada – há um momento musical a que lhe só falta uma coreografia mais ousada para o colarem a Jacques Demy; e do primeiro há um plano chapado daquela bofetada inicial de O Sangue – que, por sua vez, também já era muito Bresson -, com Huppert transformada em mulher de fogo a aproximar a mão, ameaçadoramente, da fronte e José Garcia.

Apesar de jogar com a transformação do clássico Jekyll e Hyde (o nome da professora é um propositado jogo de aliteração entre Jekyll e… Géquil), Madame Hyde é antes um filme de super-heróis, como o Homem-Aranha que os alunos mencionam logo no início: uma mulher comum que adquire poderes inadvertidamente. Até a personagem de Romain Duris é toda ela um cartune, com as suas roupas coloridas e maneirismos exagerados. O problema é que nunca se percebe onde é que Serge Bozon pretende chegar. Enquanto filme de escola (e, assumidamente, muito pró-escola), procura tocar alguns temas importantes (o racismo, a descriminação, os subúrbios…), mas fica-se sempre pela ruma. E a sua mensagem moral sai também descompensada, perdida algures entre as cenas e os sub-enredos.

Vê-se que Bozon se divertidu a baralhar signos, géneros e influências cinematográficas, mas no final esqueceu-se de que tinha algo para nos dizer. E nós ficamos sem perceber propriamente o quê e sem saber o que pensar realmente deste Happy Meal.Título: Madame Hyde
Realizador: Serge Bozon
Ano: 2018

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *