| CRÍTICAS | O Cheiro de Nós

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Nunca gostei do Larry Clark e até é o mais próximo que tenho de um ódio de estimação. Confesso que até simpatizo com o Wassup Rockers – Desafios da Rua, mas não entendo o fascínio do Miúdos e de todo o seu sensacionalismo barato. E toda a sua carreira é, de um modo ou de outro, uma variação desse filme. Por isso, se havia coisa que fazia mesmo falta ao mundo neste momento era [ligar modo ironia] uma versão do Miúdos em francês [desligar modo ironia].

O Cheiro de Nós é então um retrato (pseudo)realista do que fazem os jovens franceses quando os pais não estão a ver. O que, do ponto de vista de Larry Clark, significa muita droga, sexo, rock’n’roll (a banda-sonora é, provavelmente, a melhor coisinha do filme) e skates. A grande novidade de O Cheiro de Nós para com os seus antecessores é a absorção da linguagem das novas tecnologias, com cenas filmadas com câmaras de baixa resolução, com lag incluído  tudo.

Tudo isto é filmado com uma economia narrativa enorme (preguiça?), como se fosse um longo teledisco para a MTV, praticamente sem diálogos e sem história. E pelos fugazes episódios que lá se sucedem, conseguimos perceber que o que os jovens franceses fazem hoje em dia quando os pais não estão a ver é vender o corpo por dinheiro. Aparentemente há ainda uma espécie de amor proibido entre dois amigos, um que é gay e outro que o é apenas pelo dinheiro.

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Em Miúdos até conseguíamos perceber o contexto de toda aquela angústia juvenil. Ao fim ao cabo eram aqueles jovens que tinham como porta-voz geracional aquele tipo que cantava “entertain us”, no hino dos anos 90 Smells Like Teen Spirit. Ver os jovens retratados da mesma forma, vinte anos depois, não parece só mais do mesmo como também parece aproveitamento fácil. E depois todo aquele sexo gráfico e sensacionalista dá um ar de dirty old man ao fetichismo voyeur ao filme, a Larry Clark e, consequentemente, a nós. Aliás, depois do protagonista, Lukas Ionesco, ter cortado relações com o realizador, a sua mãe acusou-o de ser um “artista pedófilo”. E isso vindo de uma mulher que servia de modelo erótico para as fotos da sua mãe tem muito que se lhe diga…

Resumindo e baralhando: precisávamos tanto de um O Cheiro de Nós como de um buraco na cabeça. Que é o mesmo que dizer que Larry Clark leva daqui um Pão com Manteiga. E até já é demais.pa%cc%83o-com-manteigaTítulo: The Smell of Us
Realizador: Larry Clark
Ano: 2004

One thought on “| CRÍTICAS | O Cheiro de Nós

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