| CRÍTICAS | I’m Not There – Não Estou Aí

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Com Velvet Goldmine, Todd Haynes já tinha mostrado que não era um simples apreciador de música que gostava de fazer uns meros filmes biográficos acerca dos seus músicos favoritos. Todd Haynes é antes um melómano obsessivo e compulsivo, que prefere antes fazer filmes sobre as próprias cenas musicais e tudo o que lhe está inerente do que se limitar aos simples intérpretes.

Por isso, adivinhava-se à partida que este Não Estou Aí, filme baseado livremente na vida e obra de Bob Dylan, não iria ser um simples bio-pic. Porque ao contrário deste género, em que os realizadores partem do pressuposto que o espectador é uma criança de 5 anos e não sabe nada acerca do representado, Todd Haynes faz ao contrário, presumindo que os espectadores sabem como ele todos os pormenores da história da música, construindo com eles elaboradas narrativas.

Era assim em Velvet Goldmine, um filme que, mais do que uma romantização do alter-ego de David Bowie, Ziggy Stardust, e dos seus contemporâneos Marc Bolan e Iggy Pop, era uma fantasia acerca do glam-rock e de toda a cena socio-cultural que daí adveio. E é assim em Não Estou Aí, adaptação simbólica da vida e obra de Bob Dylan, um dos maiores ícones do século XX e um mestre da palavra – e vencedor do prémio Nobel da Literatura neste exacto dia.

Fora os devidos exageros, a melhor forma de entender Bob Dylan é compará-lo com Fernando Pessoa. Contudo, no caso do norte-americano, não são tanto heterónimos, mas antes personalidades que se alteraram consoante os sinais do tempo. E Todd Haynes toma este pormenor de forma literal e desconstroi a vida de Bob Dylan em sete camadas, recorrendo a seis actores diferentes para representar cada uma essas sete fases da vida – Cate Blanchett, Ben Whishaw, Christian Bale, Richard Gere, Marcus Carl Franklin e Heath Ledger – e recorrendo a sete formas de filmar distintas para as distinguir a todas, desde o preto e branco ao 16mm granulado.

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O resultado final é uma espécie de fantasia ao bom sentido de Across The Universe, mas em formato-mosaico e de natureza artsy. Infelizmente, chegando ao fim, a coisa não vai necessariamente fazer todo o sentido; e ao contrário dos filmes surrealistas, não ficamos necessariamente com a impressão de que ficou algo escrito nas entrelinhas. O problema de Não Estou Aí é que, ao contrário de Velvet Goldmine, que mesmo para quem não estivesse familizarizado com o glam-rock acabava por ser uma boa história de auto-estima, não consegue manter-se em pé para aqueles que não conhecem a complexa história do Bob Dylan. Para estes, Não Estou Aí é apenas uma miscelânea de episódios aleatórios sem grande sentido.

Há no entanto uma das facetas de Dylan que se destaca no filme: a elétcrica, representada por Cate Blanchett(!), que se supera completamente. Também é verdade que esta é a faceta que mais mimetiza o próprio Bob Dylan, mas também não deixa de ser a mais feliz no filme de Todd Haynes. É fantástica a desconstrução surrealista que o realizador faz da primeira apresentação eléctrica da banda no Festival de Folk de Newport, com uzis em vez de guitarras eléctricas, ou o ambiente felliniano escalpelizado de 8 1/2 que é pintado na visita de Dylan ao Reino Unido, com a beatlemania em pano de fundo (e com Brian Jones, o tipo daquela “banda de covers”, os Rolling Stones).

Para quem não é fã de Bob Dylan, Não Estou Aí irá certamente soçobrar. Para os outros, será menos doloroso, mas mesmo assim não será o filme que estariam à espera. Eu pelo menos estava à espera de outra coisa, ou mais simbólico, ou mais literal. Assim, é apenas um McChicken que serve para ouvir boa música e enganar a fome às vezes.mcchickenTítulo: I’m Not There
Realizador: Todd Haynes
Ano: 2007

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