| CRÍTICAS | Bowie, Man with a Hundred Faces or The Phantom of Hérouville

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Com a morte de David Bowie, qualquer pretexto serviu para recuperar o seu legado e prestar tributo à sua memória. Por isso, tornou-se difícil por vezes não chover no molhado, repetindo ad aeternum ideias feitas, clichés e outras considerações que se convencionaram colar à figura de Bowie. Para a sua edição deste ano, o Doclisboa projectou, pela primeira vez em Portugal, o documentário Bowie, Man with a Hundred Faces or The Phantom of Hérouville, uma encomenda da televisão francesa a propósito do lançamento de The Next Day, o disco de 2013, e que tem como pretexto um ponto de partida bastante interessante, nem que seja pela imprevisibilidade: o estúdio francês de Hérouville.

As mil e uma facetas de David Bowie, que lhe granjearam inclusive a alcunha de Camaleão (e valeram o subtítulo deste documentário), fazem com que a tentativa de qualquer biografia sobre o homem seja uma tarefa condenada a espraiar-se e a perder-se o controle. Por isso, a intenção de utilizar Hérouville como ponto congregador para este documentário é, à partida, uma ideia bastante feliz. É que o famoso estúdio do chêateau de Hérouville (onde foram feitos vários discos seminais da história da música, dos Pink Floyd a Elton John, passando por… Zeca Afonso), foi o sítio onde Bowie gravou o Pin Ups, produziu o The Idiot para Iggy Pop e depois iniciou a trilogia de Berlim, com o Low. E este último é um disco charneira, que faz a transição entre o Bowie clássico e o Bowie moderno.

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Este caderno de encargos tem tudo para dar certo, mas talvez devido à sua natureza televisiva, Bowie, Man with a Hundred Faces or The Phantom of Hérouville acaba por ter que dar resposta a outras necessidades de agenda. Assim, faz um apanhado for dummies da obra de Bowie, desde o homónimo de 67 a The Next Day (que acaba por ser o verdadeiro pretexto do documentário), vai buscar uma série de entrevistados mas falha todos os grandes protagonistas desta história (excepção feita ao engenheiro de som do estúdio) e engendra uma espécie de performance com os herdeiros do legado de Bowie na França, colocando uma série de novos artistas da chanson francesa a interpretar temas de Bowie numas recriações manhosas nos corredores de Hérouville – o Seu Jorge fê-lo tão melhor com tão menos.

No final, Bowie, Man with a Hundred Faces or The Phantom of Hérouville é uma espécie de salgalhada que junta todas estas leituras que faz da vida e obra de David Bowie. Claro que a música, que é o mais importante aqui, é tão boa que ajuda a colar tudo com algum critério e uniformidade. Mas tirando as poucas histórias de Hérouville e o Gonzales a explicar porque é que Life on Mars é uma versão de My Way, não existe realmente nada de novo neste filme para quem está familiarizado com a obra do Camaleão. O que não faz com que seja desinteressante ou menor do que um McChicken.mcchickenTítulo: Bowie, l’Homme Cent Visages ou le Fantôme d’Hérouville
Realizador: Gaëtan Chataigner e Christophe Conte
Ano: 2015

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