| ENTREVISTA | FILIPE MELO: “O cinema está como sempre esteve, continua a haver filmes extraordinários e originais”

Filipe Melo, nascido em Lisboa em 1977, é uma espécie de homem-renascentista, num país que não está habituado a tanta pluridisciplinaridade. Aquele que, nos últimos tempos, tem ficado mais conhecido como o tipo de barba do Uma Nêspera no Cu, é um dos melhores (o maior?) pianistas portugueses da actualidade, fez o primeiro filme de zombies em Portugal, foi detido por pirataria informática quando ainda não era cool ser pirata informático, escreve banda-desenhada, tinha, pasme-se, um blogue de cinema com o Senhor do Adeus e, mais importante ainda, tem um bom gosto do caraças. Agora, enquanto anda a promover sessões de filmes de culto no Nimas, lançou um novo livro que cruza a banda-desenhada e o Ultramar. Estivemos a falar um bocadinho sobre isto tudo e, especialmente, sobre Os Vampiros.

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Tens um livro novo, chamado Os Vampiros, que é influenciado pelo Ultramar. Antes, o Dog Mendonça era uma série que transportava o ambiente fantástico para Lisboa. A realidade portuguesa é fundamental no teu processo criativo?
Inicialmente, queria utilizar o contexto da guerra colonial como um cenário. Foi depois de tomar esta decisão e durante o processo de investigação e de entrevistas que surgiram as melhores ideias das história. Aprendi muito no processo sobre a nossa própria história e sobre a própria tarefa de criar uma narrativa. A realidade portuguesa não é fundamental, mas ajuda muito, porque, para bem e para mal, é uma que conheço demasiado bem.

Acreditas que o fantástico e todos os seus subgéneros são (ou devem ser?) uma forma de reflectir sobre a realidade ou podem ser apenas um escape e entretenimento? Lembro-me por exemplo de como a ficção científica serviu de propaganda anti-comunista durante a Guerra Fria, por exemplo, ou como Godzilla servia para alertar para a ameaça nuclear.
Acho que não há uma regra. Há uns anos, tive o enorme privilégio de conversar com um dos meus heróis, o realizador George A. Romero. Estávamos a falar do Zombie – A Maldição dos Mortos-Vivos, que é visto por muitos como uma crítica ao consumismo, por se passar num centro comercial. No entanto, a razão pela qual isso aconteceu foi prática. O dono do centro comercial era um amigo da família. Por isso, acho que uma boa história pode ter várias leituras e interpretações e muitas delas acontecem sem a intenção inicial do autor.

Sei que pesquisaste muito sobre a Guerra Colonial para este livro. Viste muitos war movies ou esta história caminha numa direcção diferente?
Vi vários war movies e muitos documentários durante a escrita deste livro. Foram quatro anos! Desde A Colina dos Heróis, ao Estado de Guerra, ao A Barreira Invisível… Mas diria que a inspiração principal veio mesmo dos documentos reais. Um filme da Margarida Cardoso chamado Natal 71, a série do Joaquim Furtado, os vídeos de natal dos soldados. Houve um filme que me marcou muito e que parecia muito parecido com o que gostava de fazer narrativamente, O Homem Duplicado, a adaptação do livro do Saramago. Pareceu-me um filme brilhante.

Na sinopse referes que é uma reflexão sobre o subconsciente, a guerra e o medo. O que é certo é que o Ultramar tem sido um tópico muito pouco abordado na arte em Portugal, tanto a literatura como no cinema. Não deixa de ser um fenómeno inversamente proporcional ao que acontece nos Estados Unidos com o Vietname, por exemplo. Porque é que o “nosso Vietname” ainda é um tema tabu em Portugal?
Não sei se é tabu ou não, sei que é não é tão fácil encontrar-se a guerra representada na ficção. Há o Non do Manuel de Oliveira, o Cartas da Guerra e depois encontram-se alguns sobre as consequências da guerra nos combatentes. Há aquele famoso do Victor Norte a gritar “Ninguém me disse que isto ia ficar comigo para sempre!”. Enfim, é um facto que o Vietname foi visitado de todas as formas. Este livro seria uma espécie da nossa versão do BZ – Viagem Alucinante. Lembro-me que esse filme me aterrorizou quando o vi pela primeira vez.

O Dog Mendonça foi em tempos uma ideia para um filme, antes de ser uma banda-desenhada. Os Vampiros poderá tomar o caminho inverso? Poderá ser uma banda-desenhada que virá a ser um filme?
É uma pergunta que não poderei responder. Sei que, se acontecer, não serei eu a fazê-la, porque já empenhei o meu esforço em contar a história da melhor forma que consigo neste livro e não teria capacidade de o fazer melhor no cinema.

É que a pergunta que quero fazer desde início é esta: vamos voltar a ver o Filipe Melo no cinema? É que o I’ll see you in my dreams continua a ter um cantinho muito especial nos nossos corações.
Fico muito grato, especialmente sabendo que contei com o teu apoio desde o início. Eu gostava de voltar ao cinema, mas teria de ser com um projecto que tivesse a minha total convicção. Vejo muitos corações partidos à minha volta, de pessoas que queriam fazer bons filmes e que a coisa correu mal. Acho que se aprende sempre, mas no cinema só quero mesmo fazer as coisas com a minha total convicção. Esse projecto ainda não apareceu, e não sei se algum dia voltarei a filmar. Espero que sim.

Entretanto começaste a promover as Sessões de Culto no Nimas, onde és uma espécie de curador do teu próprio festival de cinema. Primeiro foi o The Room, depois o El Topo e agora o Gremlins, três filmes muito diferentes, apesar e partilharem o mesmo imaginário alternativo. Como escolhes os filmes para estas sessões?
É verdade! Estou muito entusiasmado com estas sessões e felizmente tenho conseguido esgotar a lendária sala. O critério de escolha é muito simples, é esse conceito de sala de estar, filmes que quero partilhar com as pessoas. Acho que são filmes que juntam um determinado tipo de público e o meu objectivo era exactamente esse, que destas sessões surgissem amizades e colaborações criativas. São filmes muito particulares e quero que haja alguma imprevisibilidade nas escolhas. Confesso que me deu algum gozo ver algumas pessoas a sair da sala durante o El Topo. Imagino que, no seu tempo de sessões à meia-noite nos anos 70, tenha acontecido o mesmo. O clima que se gera na sala é incrível, é aquela sensação que eu tinha quando ia ao cinema no antigamente, antes dos multiplex. Espero que estas sessões durem muito tempo.

Na próxima sessão, além do Gremlins, vais ainda contar com a presença do Zach Galligan. A presença de convidados especiais vai acontecer mais vezes?
Espero que sim, embora nem sempre seja economicamente possível para nós, porque a sala é muito pequena. É sempre muito inspirador ver que as pessoas que fizeram os filmes estão ali, para responder às nossas questões e curiosidades.

Cada vez há mais filmes, mais estreias e mais gente a fazer coisas, mas também há muita gente que defende que também há cada vez menos qualidade e menos imaginação no cinema, que está tudo limitado a remakes, reboots, spin-offs e afins. Concordas? O cinema ainda te consegue surpreender e maravilhar?
Não concordo. Acho que o cinema está como sempre esteve, continua a haver filmes extraordinários e originais.

Tens visto alguma coisa que queiras recomendar à malta?
Assim de cabeça… Filmes que vi nos últimos tempos de que tenha gostado especialmente… Swiss Army Man, Victoria, Tangerine, Faults, Procurem Abrigo… Enfim, há muita coisa. Gostei muito do documentário que encerrou o DocLisboa, Nos Interstícios da Realidade, do João Monteiro, sobre o realizador António de Macedo. É um filme muito bonito.

 

A ilustração de capa desta entrevista é do Juan Cavia

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