| CRÍTICAS | Os Abutres Têm Fome

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Depois de ter tirado uma licenciatura rápida em westerns em Itália, Clint Eastwood desenvolveu o seu próprio estilo nos Estados Unidos, primeiro como actor e depois como realizador. No entanto, nos primeiros tempos, os seus westerns ainda reflectiram essa influência do western spaghetti, enquanto que o seu próprio caubói ainda era reminiscente do seu Man with no Name.

O melhor exemplo disso será Os Abutres Têm Fome (poética imaginação de um título que se insere numa certa tradição de westerns porcos, feios e maus, de Bring me the Head of Alfredo Garcia a Os Três Enterros de um Homem), em que Don Siegel emula a violência gráfica (e sanguinária) dos westerns spaghettis (que por sua vez já era influenciados pelo giallo) ou aborda temas mais brutos. Nem sequer há aqui índios esteriotipados a impedirem o avanço do progresso no futuro da grande nação que são os Estados Unidos da América ou aqueles temas nobres dos filmes de John Ford e John Wayne – o mito fundador, a honra, a ética e o carácter. Em suma, os valores do homem norte-americano conservador, bom pai de família e patriota.

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Clint Eastwood é então uma extensão do seu homem sem nome, se bem que aqui se chama Logan. É um solitário, misógino e machista que vai formar parelha com a mais inesperada dupla de todas: uma freira (a bela (e jovem) Shirley McClaine). Com a ajuda um do outro, vão atacar um forte francês, com a resistência mexicana como aliados, com o objectivo de enriquecerem. Claro que a freira tem um esqueleto no armário, que só vai revelar no fim, e obviamente que que há muito subtexto sexual nas entrelinhas, às vezes até mais explicito do que estávamos à espera.

Essa ambiguidade entre o religioso e o profano casam muito bem com o aspecto poeirento de Os Abutres Têm Fome, com a sua banda-sonora também muito Ennio Morricone (com os seus assobios a fazerem de coiotes) e com um par de momentos icónicos, com destaque para a cena em que Clint Eastwood canta o Sam Hall enquanto cauteriza uma ferida com pólvora – lembra-se de Rambo III? No final, Eastwood não perde a compostura e encontra uma mulher à sua altura, pela primeira e única vez na sua carreira de caubói. E apesar de não se terem dado nada bem na vida real, há uma química screwball bastante credível entre ele e Shirley McLaine. Os Abutres Têm Fome é um dos melhores westerns americanos de Clint Eastwood e Don Seagel ensaiava neste McRoyal Deluxe muita coisa que depois poria em prática nesse western urbano que foi o primeiro Dirty Harry.

Título: Two Mules For Sister Sara
Realizador: Don Siegel
Ano: 1970

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