| CRÍTICAS | Miles Ahead

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Miles Ahead, que marca a estreia de Dan Cheadle na cadeira de realizador, é um autêntico trabalho de amor. Basta ver que, para além de realizar, Cheadle também protagonizou, produziu e participou na escrita do guião do filme, que traz para o grande ecrã um dos maiores nomes do jazz e da música em geral (do rock à fusão e ao experimentalismo), Miles David.

Contudo, Miles Ahead não é um biopic convencional. Partindo de factos verídicos, alguns apócrifos e outros tantos inventados, Cheadle imagina uma intriga em redor de uma gravação musical perdida de Miles David durante o seu retiro público de seis anos, mergulhado em drogas e paranóias. Essa história é um crime movie entre Davis, um jornalista da Rolling Stone (Ewan McGregor), a indústria musical e um jovem promissor trompetista. Lembramo-nos de Os Crimes de Wonderland pela forma como o mundo do estrelato e da fama se entrelaça com o crime, o roubo, as armas e, sobretudo, as drogas, se bem que neste a história será mais ficção do que realidade.

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Paralelamente a isto, Miles Ahead vai contando, em regime de analepse, o início de carreira de Miles Davis, na altura em que era um virtuoso do trompete, numa fase marcada pela sua relação com a cantora Frances Taylor (Emayatzy Corinealdi). É a parte credível e séria do filme, que contrapõe com a outra metade alucinada, da mesma forma que o Miles Davis do início, elegante e bem-comportado é a antítese do Miles Davis paranóico e psicótico dos anos 70. E é na forma como casa estas duas histórias paralelas, numa narrativa nada linear, que Dan Cheadle marca pontos.

Miles Ahead lembra outro biopic do ano passado, que acabou por não vingar, também sobre um músico genial. Jimi: All is by my Side era uma biografia de Jimi Hendrix sem música, mais interessado em explorar a vida do homem, como se esta fosse a única matéria que importava para moldar e explicar a sua obra (se bem que, nesse filme, a família recusou ceder os direitos das canções e isso talvez explique muita coisa). Miles Ahead procura igualmente essa experiência mais imersiva no mundo Miles Davis, num gesto mais próximo das experiências drogadas dos anos 70 (de Performance e de O Homem que Veio do Espaço) do que dos biopics convencionais que justificaram aquele boom de meados da década passada (alguém mencionou Walk the Line eu Ray?).

Apesar de ter nascido para ser Miles Davis, Dan Cheadle não consegue o mesmo brilhantismo no controlo de tantas nuances de Miles Ahead. E apesar de ser incrível ver a cena final, com Herbie Hancock, Wayne Shorter,Paul Chambers, Gary Clark e Esperanza Spaulding a tocarem, essa cena era totalmente escusada neste Double Cheeseburger, mais curioso do que interessante.

double-cheeseTítulo: Miles Ahead
Realizador: Don Cheadle
Ano: 2016

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