| ENTREVISTAS | Zvezda, o cinema que se recusou a fechar

21 de Novembro de 2014: cerca de 200 pessoas, a maioria agentes culturais, realizadores, actores e outros profissionais da sétima arte, invadem a abandonada sala de cinema Zvezda, no centro da capital da Sérvia, Belgrado. Desde então, o Zvezda exibe diariamente duas sessões de cinema, recebendo dezenas de espectadores todos os dias, mesmo que não haja aquecimento, o cheiro não seja o melhor, o projector esteja instalado entre as cadeiras e o tecto deixe entrar água. Sinais de 7 anos fechado e entregue à sua própria sorte.

Luka Bursac, jovem realizador natural de Belgrado, foi um dos que esteve envolvido nessa movimento e que continua ligado à gestão do Zvezda, que se mantém de forma muito democrática e igualmente saudável. Foi com ele que estivemos à conversa sobre esta ocupação pacífica de uma sala que visitámos no final de 2014. Na altura, o mercúrio dos termómetros andava um bocadinho acima dos zero graus e as ruas da capital sérvia estavam cobertas de gelo. Lá dentro, não estava muito mais quente. Na sessão da tarde, exibia-se duas curtas desconhecidas de um país estranho chamado Portugal (Por aqui nada de novo, de Pedro Augusto Almeida, e Da realidade e da ficção, de Pedro Estêvão Semedo), mas nem por isso o Zvezda deixou de estar bem composto. Foi duplamente inspirador.

As pessoas na Sérvia perderam muita coisa nos últimos 15 anos, as privatizações foram um processo muito doloroso, explica-nos Luka. As pessoas perderam os seus monumentos, locais históricos e a sua rede de cinemas. Entre 2007 e 2009 só havia duas salas de cinema em Belgrado, uma cidade com mais de 2 milhões de habitantes. Foi também um grande dano para a indústria cinematográfica nacional e para a cultura em geral. Ainda hoje as pessoas só têm duas opções: ou pagam 6 euros para irem ver um filme ao multiplex (num país em que o ordenado médio anda à volta dos 300 euros) ou esperam por um festival e vêm uma aborrecido art house qualquer. Por isso, apesar de ter sido um gesto político, a ocupação do Zvezda não foi o resultado de nenhuma ideologia, mas antes o culminar de uma processo de insatisfação.

O Zvezda não é um cinema qualquer. Fundado em 1911, não só é a sala mais velha de toda a Sérvia, país com uma forte tradição cinematográfica – especialmente durante o regime de Josip Tito (um assumido amante da sétima arte, que tinha uma colecção gigantesca de filmes) -, é ainda uma das mais antigas de toda a Europa. A fachada de arte nova pode passar despercebida, entalada entre dois edifícios na avenida Terazije, mas lá dentro é impossível escapar a um sentimentos de várias décadas de cinema impregnados naquelas paredes.

Convém perceber todo o processo que culminou com a ocupação de 2014. Em 2007, o Zvezda foi uma das 14 salas de cinema que foram privatizadas, vendidas por um preço claramente abaixo do seu valor de mercado a um empresário sérvio, num negócio com contornos pouco claros. Menos de um ano depois, todas elas estavam fechadas, tendo sido vendidas com uma margem de lucro super-inflaccionada. Algumas foram convertidas em hotéis, outras em casinos e outras simplesmente abandonadas.

O grande impacto mediático manteve-nos a salvo das manipulações políticas, diz-nos Luka para explicar como é que conseguem estar abertos há quase três anos. Até ao final do seu mandato, o ministro da cultura Ivan Tasovac rejeitou todos os nossos pedidos de reunião. No entanto, a polícia e a inspecção visita-nos todas as duas ou três semanas. Temos a decorrer duas batalhas legais, uma contra o proprietário e outra contra as Finanças. Para Luka, os políticos sérvios têm sido uns incompetentes a lidar com toda esta situação, que chegou a este ponto porque os grandes distribuidores, produtores e estações televisivas continuam a vender os seus produtos de entretenimento de baixa qualidade, enquanto culpam os espectadores pelo seu mau gosto.

Mas não foi só a população de Belgrado que se tem mostrado solidária para com o Zvezda. Logo no início, o realizador francês, Michel Gondry, fez uma curta animação sobre o processo que cedeu ao grupo, que passou a ser exibida no início de cada sessão. Luka Bursac acha que ele andava enrolado com uma actriz sérvia qualquer, que lhe falou da situação, e que desde esse instante que apoiou o movimento. Também o actual primeiro-ministro grego, Aléxis Tsipras, foi um dos ilustres que passou pelo Zvezda, numa visita que deve ter tido alguma coisa de simbólico em relação ao não conformismo perante a autoridade (pelo menos até o Syriza ter sido entalado à parede pela Comissão Europeia), mas Luka revela que não, que na altura ninguém sabia quem ele era e que um tipo do grupo o pôs de lá para fora.

Luka reconhece que o Zvezda é como uma prostituta velha, muito exigente, não tem um aspecto muito bonito, não cheira grande coisa e está sempre a pingar. Mas acredita no seu futuro, que podia (e devia) passar por uma espécie de movimento internacional que pudesse ser uma alternativa verdadeira à produção e distribuição cinematográfica, organizada pelos próprios trabalhadores e artistas da indústria. Até lá, o Zvezda continuará a mostrar filmes de culto, obras subversivos e clássicos da sétima arte, às vezes mais experimentais, outras mais mainstream, por apenas 1 euro. As pipocas, de início gratuitas, é que foram entretanto proibidas pela ASAE lá do sítio. Ao mesmo tempo, decorre na internet uma acção de crowdfunding para tentar juntar dinheiro que possa dar resposta às necessidades mais prementes da sala, enquanto não se resolve o imbróglio legal à sua volta. Que irá certamente durar. Muito tempo.

Até lá, temos sempre o cinema para nos salvar. Porque o cinema é mais importante que a especulação imobiliária, os interesses económicos e a corrupção do sistema. E aqui a máxima é bem audível: ocupar é resistir.

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