| CRÍTICAS | The Queen of Versailles

Os Siegel são uma família de milionários norte-americana, daquelas que fazem parte do 1 por cento, na onda dos Hilton ou do Trump. Aliás, tal como o recém-eleito presidente, David Siegel também tem umas torres gigantescas no meio da cidade. E não só são logo duas, como Trump se queixa que o sinal luminoso no topo delas faz muita claridade na sua penthouse. True story|

David Siegel fez fortuna com os resorts, que depois vende em time sharing. Fez tanto dinheiro com aquilo que decidiu construir a maior casa privada dos Estados Unidos da América, numa réplica do Palácio de Versalhes(!). Porquê? O próprio responde no documentário The Queen of Versaillesporque pode.

O documentário começa por documentar este processo e já por si só era curioso. É como um episódio do Kardashians, em que seguimos aquela família estupidamente rica, que reflecte tudo o que está de errado com o capitalismo, mas que muito boa gente confunde com o sonho americano. Mas eis que algo acontece que vai mudar tudo, tanto o rumo da vida dos Siegel como o do próprio documentário. A crise acontece! A Lehman Brothers vai à falência, a bolha rebenta e a classe média deixa de ter dinheiro para pagar as férias nos resorts de David Siegel.

The Queen of Versailles é um daqueles documentários que começa por ser uma coisa e, vai-se a ver, afinal acaba por ser sobre outra diferente (alguém mencionou o Tickled, por exemplo?). E o próprio ânimo dos documentados altera-se drasticamente. No início estão todos orgulhosos, com o império que amealharam e com o casarão que estão a fazer, mas quando este fica parado, as torres desocupadas e a torneira deixa de pingar, o desânimo e os problemas familiares instalam-se.

The Queen of Versailles é então o inverso da habitual história do pobrezinho que sobe na vida; é a história do milionário que se torna num tipo comum. Das dezanove criadas têm que se limitar a apenas uma, têm que hipotecar a casa vezes sem conta e o que tinham como garantido começa a pesar-lhes no lombo. Os animais de estimação morrem porque não há ninguém para os alimentar, a porcaria dos cães acumula-se nos tapetes porque não há ninguém para a limpar… E no meio disto tudo, Jaqueline Siegel, ex-miss América e super-dondoca, continua a comprar e a acumular como se não houvesse amanhã.

Há uma espécie de justiça divina em The Queen of Versailles que não consegue evitar que fiquemos com um sorriso estúpido nos lábios perante a tragédia daquela família. Principalmente porque depois vamos à wikipédia, descobrimos que os Siegel já estão ricos outra vez e já não precisamos de nos sentir culpados com um peso na consciência. E The Queen of Versailles assume-se como um Le Big Mac fundamental para descobrir o outro lado da crise, num excelente trabalho documental e de edição.

Título: The Queen of Versailles
Realizador: Lauren Greenfield
Ano: 2012

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