| CRÍTICAS | Trainspotting

A batida sincopada de Lust for Life começa a marcar o ritmo quando irrompe pelo ecrã adentro três adolescentes com ar de carochos a fugirem de alguma coisa. Here comes Johnny Yen again canta Iggy Pop ao mesmo tempo que um então muito novinho Ewan McGregor começa o seu monólogo, em voz off, que termina com aquele inesquecível choose life. Assim arranca Trainspotting e nesses poucos minutos ficamos logo agarrados ao filme até ao final, da mesma forma que as personagens estão agarradinhas à heroína.

Trainspotting, a adaptação do romance homónimo de Irvine Welsh, lançou o realizador Danny Boyle e o actor Ewan McGregor para o estrelato, assumindo-se como um daqueles filmes de culto que tanto agrada à crítica como ao público. Uma espécie de cinema de autor, mas com os ingredientes do chamado cinema comercial (drogas, mortes, palavrões…), repelindo e atraindo o público da mesma forma que Pulp Fiction tinha vindo revolucionar o cinema alguns anos antes.

Trainspotting é o retrato de uma geração de adolescentes numa determinada realidade espacial e temporal: a Escócia dos anos 90. São os working class heroes, mas sem nada de heróis, numa década em que o principal hino geracional gritava entertain us. Depois do punk dos anos 70 cuspir um fuck you e o dos anos 80 lamentar um I’m fucked, a desencantada juventude dos anos 90 tinha pouco por onde se queixar e encontrava o seu escape na droga. Who needs reasons when you’ve got heroin?, perguntava Ewan McGregor no tal monólogo de abertura. E aqui sim, Trainspotting era o verdadeiro retrato de uma geração e não Miúdos, esse panfleto gratuito e sensacionalista de Larry Clark.

Ewan McGregor, ou melhor, Renton, Spud (Ewan Bremmer), Sick Boy (Jonny Lee Miller) e Tommy (Kevin McKidd) são então os protagonistas de Trainspotting à maneira de Alex e a sua gangue de malfeitores, em Laranja Mecânica, clara influência anarquista de Trainspotting. No entanto, Danny Boyle não faz aqui quaisquer juízos de valor sobre estes jovens, os seus actos e as suas intenções. E a melhor prova disso são as inúmeras discussões que surgiram na altura da estreia do filme e que ainda hoje florescem ela internet fora, entre os que declaram que Trainspotting é uma apologia às drogas e os que defendem precisamente o oposto.

Danny Boyle usa aquele seu estilo algo televisivo, de cores saturadas e pouco rigor para com as convenções fílmicas, que depois se tornaria da sua imagem de marca para o bem e para o mal, aproveitando os diálogos escorreitos e sem papas na língua (que vai beber tanto a Quentin Taratino, quanto influenciou depois o Guy Ritchie inicial) para montra um filme cru e visceral, em que o humor de rua, as rixas de bar e as drogas se cruzam com a morte de bebés, adições pesadas à papinha e vidas desperdiçadas. Tudo isto vai desemborcar num crime movie, que serve para fazer o remate de uma história em que as intenções são outras. Nunca Danny Boye repetiria um Le Big Mac como este, num filme que é, simultaneamente, intemporal e o espelho do seu tempo. Título: Trainspotting
Realizador: Danny Boyle
Ano: 1996

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