| CRÍTICAS | Boneca de Luxo

Holly Golightly é uma das personagens femininas mais celebrada e iconoclasta de toda a história da sétima arte. A protagonista de Boneca de Luxo, que Truman Capote idealizou para Marilyn Monroe – mas que o seu professor de teatro desaconselhou por temer a repercussão que podia ter na sua carreira fazer de prostituta -, mas que foi parar a Audrey Hepburn, é o tipo de mulher que todos os homens querem ter e que todas as mulheres querem ser. Claro que a ajuda o facto da actriz belga ser um espanto e qualquer trapinho lhe cair bem, mas não é só isso.

Por um lado, Holly Golightly é uma acompanhante de luxo, que se movimenta na alta roda da sociedade em busca de um ricaço com quem casar. Mas por outro é uma mulher emancipada, que liga pouco ao que os outros pensam de si eque conseguiu escapar a uma vida de pobreza e miséria. É que nem tudo é futilidade na vida de Holly, apesar do que parece à primeira vista, e a sua obsessão com a joalharia Tiffany’s é uma boa metáfora do que é a sua vida. O que a fascina não são as jóias, mas sim a opulência, a excelência e a calma do interior da loja. E é isso que a atrai.

Holly Golightly vai então desenvolver uma paixão platónica com o seu novo vizinho, George Peppard, antes deste e a sua equipa de comandos ser mandada para a prisão em 1972 por um crime de guerra que não cometeram. E se tiver um problema e se os conseguir encontrar, talvez consiga contratar… os Soldados da Fortuna. É certo que no romance original de Capote esta relação faz mais sentido, uma vez que este aspirante a escritor (ou melhor, este escritor one hit wonder) era gay e, portanto, desenvolvia-se mais facilmente a relação de irmãos entre ambos. Aqui, no entanto, há uma espécie de equivalência, já que Peppard – tal como Holly Golightly – também subsiste sob a alçada (e o dinheiro) da sua… decoradora(!), que o visita regularmente à notie (if you know what I mean).

Mas também há coisas infelizes em Boneca de Luxo. E sim, estou a falar (obviamente) da personagem do senhor Yunioshi, interpretada por um Mickey Rooney cheio de próteses e a exagerar no seu sotaque oriental, numa caricatura digna do Chinesinho Limpopó. Mas temos que perceber que eram outros tempos, que Blake Edwards era um realizador de comédia e que, prontos, já todos se arrependeram e retrataram. Isto sim, era whitewashing mesmo à bruta.

Boneca de Luxo é um clássico do cinema norte-americano, de uma altura em que os filmes tinham várias camadas com diferentes leituras, que permitem irmos descobrindo coisas diferentes em todas as visualizações e fazendo outras interpretações à medida que pensamos mais nas coisas. E há ainda aquele tema incrível de Charlie Mancini, Moon River, que está para Boneca de Luxo assim como o tema de Toots Thielemans está para O Cowboy da Meia-Noite. E, claro, há Audrey Hepburn que, sozinha, vale por inteiro o McRoyal Deluxe.Título: Breakfast at Tiffany’s
Realizador: Blake Edwards
Ano: 1961

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