| CRÍTICAS | Suspiria

Com a ideia inicial de filmar o que seria o início de uma triologia, Dario Argento assinou, em 1977, Suspiria, que se tornaria rapidamente num clássico do cinema de terror e filme de culto dentro do género. Para isso, teve de contornar alguns pormenores do seu argumento inicial para escapar à censura. É que, originalmente, o realizador italiano tinha escrito a história do filme para jovens raparigas até aos 12 anos.

Com uma herança cinematográfica assente nos spaghetti western, Argento canalizou toda a sua criatividade demente para o cinema de horror e para o giallo, casando-o com o mais fantástico surrealismo de Buñuel e com o impressionismo alemão, com influência directa de clássicos distintos, desde Metropolis até Nosfeartu, O Vampiro. Suspiria é a tradicional história de uma jovem, Suzy Bannion (Jessica Harper), uma norte-americana que viaja para a Alemanha para uma famosa escola de ballet. O que Suzy não sabe é que esta esconde aterradores segredos, que incluem estranhas mortes e misteriosos desaparecimentos. Ou seja, é a enésima variação sobre a guilda de bruxas mascarada (olá Harry Potter, como estás?), mas não é aí que o filme se destaca. Argento queria tornar Suspiria no mais assustador filme de sempre e para isso concentrou todas as suas forças nesse capítulo, descurando os outros.

Para isso em muito contribui a famosa banda-sonora do filme, dos Goblin, ela própria que é quase uma personagem do filme e da qual rezam as crónicas de que era colocada em alto volume durante as filmagens de modo a enlouquecer os actores. De facto, é compreensível: mais perturbador que essa faixa, só mesmo a de A Semente Do Diabo. Dario Argento constrói aqui um universo próprio bastante pessoal, filmado num processo semelhante ao colorido technicolor; a escola de ballet é uma aterradora construção cénica, uma fusão entre a arquitectura barroca, o surrealismo de Escher, o folclore oriental, a escala disconexa de Metropolis e as cores de Eduardo Mãos-De-Tesoura. E, como se isso não bastasse, o realizador italiano habita-a com as mais macabras criaturas, qual circo de aberrações, aonde Fulci vai mais tarde adoptar alguns modelos.

Argento é um mestre no suspense e Suspiria tem um início bastante interessante, como que uma enorme vénia ao impressionismo alemão. E depois mergulha de cabeça no giallo, com as suas sangrentas cenas de homicídios, onde encontramos todas as raízes dos actuais e ridículos slasher movies. Suspiria é uma pérola do cinema de terror e um clássico do folclore do horror. Visualmente cativante, perturbador, arrepiante e assustador, é um dos clássicos do género com mais estilo e uma obra-prima obrigatória para apreciadores e não só. O filme sai daqui com um enorme McBacon, recheado de molhos. Mas o que vocês não sabem é que isso não é ketchup, mas sim sangue [gargalhada meléfica].Título: Suspiria
Realizador: Dario Argento
Ano: 1977

2 thoughts on “| CRÍTICAS | Suspiria

  1. Se o filme impressionou alguém em 1977 já é demérito para quem se impressionou, mas ainda ter gente que se impressiona com esse filme no Século XIX é um absurdo. Só pode ser gente do tipo que se impressiona até com BRUXA DE BLAIR e outras “obras primas” do cinema Trash. Dario Argento é um enorme canastrão como diretor, tem talento em certos aspectos, por isso seus filmes tem alguns atrativos, mas suas limitações são tão grandes que seus filmes são exotismos de humor involuntário que até podem ter graça no inicio, mas acabam se tornando maçantes. Ele teve algumas boas ideias em seus filmes? Sim, mas suas limitações impediram a obtenção de um resultado melhor. Querem cinema de terror com qualidade? Vejam Polansky, Val Lewton, Robert Wise, Kubrick e alguns outros. Dario Argento é apenas um excêntrico que possui talento e criatividade, digamos, setoriais, mas que é incompetente no geral. Essa mistura de talento e incompetência é que ainda dá algum atrativo (involuntário) aos seus filmes.

    • O grande trunfo do Argento, a meu ver, é sobretudo formal. É certo que alguns dos seus filmes envelheceram mal, mas isso deve-se sobretudo ao facto de serem fórmulas que foram replicadas ad eternum à posteriori. Mas nem acho que seja o caso do Suspiria.
      Mas que mal tem o Blair Witch project, Fernando? 😛 Belo filme série b de terror (mas num contexto muito específico, claro).

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