| CRÍTICAS | Watchmen – Os Guardiões

Alan Moore é o Maradona da banda-desenhada. Apesar de ser um tipo estranho como o raio que o parta, Moore revolucionou o mundo da BD, tornando-o mais adulto e transformando os super-heróis em seres humanos, com profundidade metafísica. As suas novelas gráficas (designação que forçosamente surgiu para apelidar esses verdadeiros romances aos quadradinhos) têm sido adaptadas ao cinema que nem castanhas quentes no Outuno, mas o seu ex-libris, Watchmen, esteve anos e anos num impasse, passando de mão em mão e trocando de argumento vezes sem conta. Até que Terry Gilliam, habituado a demandas intermináveis destas, rematou: o livro era impossível de adaptar em filme, apenas em mini-série televisiva, tal era a sua complexidade.

Até que surgiu em cena o jovem Zack Snyder, que, depois de ter adaptado com (grande) sucesso a graphic novel de Frank Miller, 300, acolheu o desafio de filmar Watchmen – Os Guardiões. Snyder é um geek como J.J. Abrams, que sabe conciliar o entretenimento e a máquina de pipocas de Hollywood com os universos muito específicos da banda-desenhada, dos videojogos e da ficção-científica. Basicamente, consegue agradar ao grande público e às minorias mais exigentes. E, para fazer Watchmen – Os Guardiões, seguiu o mesmo truque de 300 – aproveitar os storyboards e manter-se o mais fiél possível ao livro.

Devia ser tão fácil adaptar banda-desenhada ao cinema. Tudo está já condensado em quadradinhos – o ritmo, as personagens, os diálogos… Devia ser só fazer uma espécie de exercício de bricolage. E Snyder prova que isso é fácil. Basta ver a cena de abertura de Watchmen – Os Guardiões, que abre a cem à hora, com um duelo mano a mano entre dois super-heróis, o Comediante (genial Jeffrey Dean Morgan, a fazer lembrar Robert Downey Jr.) e um mascarado incógnito, tirado a papel químico do livro, com umas câmaras-lentas muito cool e o Nat King Cole a cantar o Unforgettable por cima. De facto, cena inesquecível. E o espectador fica ganho para o resto do filme, que é longo.

De facto, apesar de ser um filme de super-heróis, Watchmen – Os Guardiões não é um filme fácil. Há porrada de meia-noite, tipos que voam, gajos alterados radiactivamente e miúdas giras em fatos apertados de licra, mas há uma forte componente existencial. No fundo, parece um noir: um narrador atormentado, Rorschach (Jackie Earle Haley), que vai unindo as pontas, várias personagens moralmente dúbias (apesar de serem super-heróis) e um mundo em ocaso como pano de fundo, simbolizando uma época de transição, reflexo daquelas personagens e reflexo do que Watchmen fez pelo mundo da BD.

Tal como V De Vingança, Watchmen – Os Guardiões passa-se numa realidade do “e se?”. E se não tivesse havido caso Watergate e Nixon continuasse à frente dos destinos dos Estados Unidos? E se União Soviética continuasse unida? E se, e se? Estamos então nos anos 80, a Guerra Fria está no auge, a terceira guerra mundial está à porta e a ameaça atómica é bem real. O mundo está em colapso, assim como um grupo de antigos vigilantes, uma segunda geração de super-heróis que defenderam a pátria no Vietname, mas que agora foram proibidos por Nixon. São então homens num limbo existencial, enquanto vêem as suas vidas desfragmentarem-se, ao mesmo tempo que o mundo se desfragmenta ao seu redor.

É uma época de mudança. E não é por acaso que o genérico (genial, demasiado genial para não o dizer) se faz ao som de The Times They Are A-Changin’, de Bob Dylan, numa montagem que faz o resumo de duas décadas daquela realidade alternativa: desde os anos 50 e o surgir dos primeiros super-heróis (com toda a imagética das pulps daquela altura) até ao apogeu e queda da nova geração de super-heróis, em plena década de 80. E há heróis para todos os gostos: dos que voam, dos que dizem piadas, dos que são quase imortais, dos que têm engenhocas que nunca mais acabam. Mas todos eles têm um dilema moral e é preciso uma catarse final para que eles descansem, o mundo se liberte e o filme termine.

Watchmen – Os Guardiões é assim esse ritual de transição, numa realidade alternativa mas que podia ser real e ecoa a actualidade por todos os lados. É sobre tipos que voam e têm força sobre-humana, mas são mais parecidos connosco do que os filmes do Pedro Costa. E apanha-nos desprevenidos, por entre uma paleta de condimentos que não estavamos à espera, misturando o suspense, a acção e a intriga misteriosa de um filme de acção com o drama, a introspecção colectiva e a racionalidade do chamado cinema sério.

Alan Moore tem renegado todos os filmes que têm sido feitos a partir de obras suas (na maior parte dos casos com razão), mas aposto que se visse Watchmen – Os Guardiões ia achar que, sim senhor, finalmente alguém quase lhe tinha feito justiça. E agora, caso ainda não tenha lido o livro, espero que este texto e o Royale With Cheese final o façam ir comprar.

Título: Watchmen 
Realizador: Zack Snyder
Ano: 2009

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