| CRÍTICAS | São Jorge

Cinema e boxe são dois universos que, tradicionalmente, se dão muito bem e têm uma relação duradoura e de sucesso. Falamos de filmes de boxe e é impossível não pensarmos num Rocky ou num Touro Enraivecido. E se deslocarmos isto para a realidade portuguesa, Belarmino torna-se obrigatório. No entanto, há um novo tipo no pedaço, a querer tomar lugar junto a estas instituições. Chama-se São Jorge, é de Marco Martins e, pelo menos nos filmes de boxe portugueses, já tem lugar de eleição garantido.

Contudo, apesar de ter um boxeur como protagonista, São Jorge não é propriamente um filme de boxe. Ou pelo menos da mesma forma que são os títulos referidos no parágrafo anterior. Jorge, ou seja, Nuno Lopes, é então um praticante de boxe da classe média-baixa lisboeta, que para pagar as contas ao fim do mês arranja um emprego como cobrador de dívidas difíceis numa empresa de crédito de reputação duvidosa.

Portanto, mais do que o boxe, São Jorge é um filme sobre a crise e sobre como a troika veio influenciar directa e decisivamente as nossas vidas. É um filme político, com uma agenda mais ou menos bem definida, que acaba por se colocar em linha com outros dois filmes que estrearam recentemente nas nossas salas e que, apesar de serem obras bem distintas, têm um ponto em comum: uma espécie de combate determinado contra uma sociedade capitalista e canibal que tudo consome, passando por cima de qualquer noção de humanismo que possa resistir a este avanço galopante do poder do dinheiro e do liberalismo. Esses filmes são A Lei do Mercado e Aquarius e, curiosamente, são três filmes que vêm de proveniências bem diferentes.

Nuno Lopes mergulha então nessa sua personagem, que habita na periferia urbana da Margem Sul – ou seja, o Portugal bem real que, apesar de não aparecer na Lisboa ou no Porto turísticos, que mês sim mês não são eleitos destinos de eleição para o turista internacional, são a realidade bem palpável do nosso país -, e vive-o numa composição que não se percebe onde começa e onde termina os limites entre o actor e a pessoa. E Marco Martins segue-o, como se estivesse a documentar uma ficção do real – e se os cenários são bem orgânicos, algumas personagens secundárias são pessoas reais que a dupla encontrou nos bairros sociais onde trabalhou.

Com uma fotografia impecável, do melhor que já se viu no nosso cinema, São Jorge é quase um filme sensorial, parco em diálogos, mas nem por isso em emoções e sentimentos. É um filme pesado e duro, como já era o inicial Alice, que nos revelou Marco Martins (e onde este se encontrava também com Nuno Lopes, no seu primeiro grande papel dramático). E é, sem dúvidas, um dos grandes títulos a entrar directamente para o panteão dos grandes filmes nacionais. Um McRoyal Deluxe que até sabe a mais do que estamos à espera.Título: São Jorge
Realizador: Marco Martins
Ano: 2016

3 thoughts on “| CRÍTICAS | São Jorge

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *