| CRÍTICAS | Doutor Estranho

Vivemos tempos gloriosos! Em pleno século XXI, em que a ciência avançou até ao ponto de se comercializarem umas ampolas para darmos umas bufas bem-cheirosas, voltámos a ter no primeiro mundo doenças que haviam sido declarada erradicadas como o sarampo. Tudo porque as tretas new age voltaram à ordem do dia, mais fortes do que nunca, com as energias, as medicinas alternativas e mais uma quantidade incrível de mambo jambo a imporem as suas regras junto a muito boa gente.

Por isso, não deixa de ser curioso ver Doutor Estranho à luz deste prisma. É que este super-herói da Marvel é bem diferente da maioria, uma vez que os seus poderes não vêm de nenhuma picada radioactiva ou do efeito da atmosfera terrestre no seu metabolismo extraterrestre. Os poderes do Doutor Estranho vêm do seu domínio das milenares artes mágicas, aprendidas no místico oriente, mais propriamente na capital nepalesa de Catmandu.

O mais curioso é que Stephen Estranho (o alter-ego do Doutor Estranho) era um cirurgião altamente conceituado, que deixa de lado o cepticismo da racionalidade dos factos científicos quando a medicina convencional não consegue sarar as suas mãos após um grave acidente de viação e abraça a magia e… de certa forma, a medicina alternativa. Os maluquinhos das teorias da conspiração anti-vacinação vão adorar este herói da Marvel.

Doutor Estranho começa então com a origem de Estranho, até porque este nunca foi um dos heróis mais populares da Marvel. Talvez por isso pareça-se tanto com o Homem-de-Ferro: um profissional bem-sucedido e altamente arrogante na sua área, cuja adversidade vai faze-lo tornar-se mais humilde e atencioso para com os outros. E qual a melhor forma de dizer que se preocupa com terceiros do que se tornar num dos guardiões do nosso universo contra as forças mágicas do mal?

Um dos grandes trunfos de Doutor Estranho é a sua componente visual, já que as realidades alternativas que convoca são um regalo para os olhos, fazendo do filme um must para se ver no cinema, em ecrã grande. E neste campo, Doutor Estranho é um espécie de A Origem nos ácidos. Quanto ao seu segundo trunfo, esse é o humor. O realizador Scott Derrickson parece ter sabido aprender com o passado recente da Marvel, em que os seus filmes de maior sucesso comercial têm sido aqueles que sabem não se levarem demasiado a sérios (olá Deadpool, olá Homem-Formiga, como estás Guardiões da Galáxia?), e Doutor Estranho não se deixa levar pela sisudez. Afinal de contas, estamos a ver um filme sobre magos que dobram o tempo e a matéria e não um drama existencial do Bergman. Para dramas já nos basta a vida.

No entanto, nem tudo é perfeito em Doutor Estranho, como é óbvio. É certo que ajuda ter actores a sério – Benedict Cumberbatch, Tilda Swintn em modo airbender e Mads Mikkelsen, que é um óptimo vilão -, mas o filme sofre de duas ou três paragens cerebrais, do síndrome do herói demasiado heróico (Cumberbatch aprende em pouco tempo (meses, anos?) o que os restantes colegas demoraram eternidades a alcançar) e de um Chiwetel Ejiofor que está lá apenas para cumprir a quota de actores negros em blockbusters de Hollywood. Mesmo assim, é um dos melhores filmes da Marvel, que com os níveis de gordura certos no sangue e o cérebro desligado dá para apreciar na boa um McChicken inteiro.Título: Doctor Strange
Realizador:
Scott Derrickson
Ano: 2016

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