| CRÍTICAS | Straight Outta Compton

Para quem nasceu nesta viragem de século, isto que vou contar pode ser um choque, parecer uma história da Carocinha ou soar como conversa da pré-história. Mas eu ainda sou do tempo em que o hip-hop não era um género estabelecido, os rappers não tinha credibilidade e o género era desprezado pela indústria. Sim, não foi há muito tempo que isso era assim. E, vendo bem as coisas, o mundo não mudou assim tanto. As contingências é que se alteraram.

Os NWA, as iniciais para Niggaz With Attitudes, foram um dos momentos-charneira que ajudaram a colocar o hip-hop definitivamente no mapa. No entanto, não foi um processo simples nem fácil. Por um lado, eram adorados por aqueles que se reviam nas suas letras realistas, sobre a vida na rua e como a cor da pele continuava (continua?) a ser uma questão importante nos Estados Unidos (no mundo?); por outro, eram acusados pela opinião pública (e pela própria polícia) de incitarem à violência, às drogas e à misoginia.

No meio de tudo isto, os NWA adoptaram um papel duplo. Por um lado, tornaram-se num marco decisivo na história da música anglo-saxónica em geral e da música negra em particular; por outro lado, foram a prova viva da vida das ruas, vindos de um bairro social perigoso – Compton -, onde era mais fácil encontrar uma metralhadora na rua do que um polícia, ganhando o epíteto de banda mais perigosa do mundo, com os seus concertos a serem vigiados de perto pelas autoridades e a serem intimados directamente pelo FBI para não cantarem ao vivo o seu hit Fuck the police. É precisamente este duplo papel que o biopic Straight Outta Compton pretende focar, especialmente a segunda parte. E pode-se dizer que o realizador F. Gary Gray (que assinara vários telediscos para Ice Cube no início da sua carreira a solo) consegue-o, porque sentimos o perigo inerente à música e à vida daquela gente.

Os NWA transportaram para a sua música, mas também para o seu dia-a-dia, a imagem das ruas onde viviam. A violência, as armas, as mulheres e as drogas não viviam apenas nas letras das suas canções; eram também parte deles e de quem eram. Percebemos assim, com o filme, que o gangsta-rap não nasceu por capricho. É certo que depois foi absorvido pelo sistema, mas quando aparece Snoop Dog percebemos esta cronologia recente do hip-hop. Mas paralelamente a isto, os NWA emularam nas suas carreiras os mesmos sistemas das ruas, das gangues e das rivalidades. E quando Ice Cube deixou a banda, em atrito com o manager (um como sempre discreto, mas brilhante, Paul Giamatti), essa rivalidade agravou-se.

A parte humana é, precisamente, a menos conseguida em Straight Outta Compton. F. Gary Gray decide focar-se em Easy-Z (Jason Mitchell), em Ice Cube (interpretado pelo seu próprio filho, O’Shea Jackson Jr., com umas parecenças físicas que chega a ser perturbador) e em Dr. Dre (Corey Hawkins), relegando para segundo plano, para meros figurantes, o resto da banda. Especialmente para MC Ren (Aldis Hodge) isso é particularmente deselegante. Mas o grande objectivo de Straight Outta Compton é captar o espírito do seu tempo e como a banda foi importante para perceber, interpretar e definir aqueles anos ali entre o final dos anos 80 e o início dos anos 90. E nem sequer estou a falar em termos musicais. Quando, no filme, explodem os confrontos na rua por causa do espancamento de Rodney King (e o realizador utiliza as imagens reais, para nos lembrar que essas imagens estarão sempre aí para nos atormentar), lembramo-nos logo de I am Not Your Negro e de como as questões raciais continuam a ser uma questão tão actual quanto pertinente nos nossos dias.

Straight Outta Compton é um filme biográfico sobre uma banda fundamental da música negra norte-americana; um filme musical essencial para percebermos como o hip-hop se tornou no que é hoje; e um filme sociológico pertinente, que analisa a história negra recente nos Estados Unidos. E tudo isso com a música dos NWA, que mantém-se actual e nem por isso datada, umas reconstituições dos seus concertos bem catitas e um sentimento de vertigem que atravessa as duas horas e meia de filme do início ao fim. O McRoyal Deluxe ajuda a perceber porque foi o biopic musical com o melhores resultados de bilheteira desde Walk the Line.Título: Straight Outta Compton
Realizador: F. Gary Gray
Ano: 2016

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