| CRÍTICAS | Lowlife

El Monstruo (Ricardo Adam Zarate), filho do grande El Monstruo que, por sua vez, era filho do não menos grande El Monstruo, é o luchador campeão dos fracos e oprimidos, que matou o primeiro homem aos 15 anos, altura em que recebeu das mãos do pai a sua máscara e o direito a perpetuar esse legado que há de ser do seu filho também. Apesar disso, El Monstruo trabalha como capanga de um tipo mau carácter, Teddy Bear Haynes (Mark Burnham), que rapta mexicanos ilegais no país para lhes roubar os órgãos e prostituir as mulheres.

A história de El Monstruo – uma das três deste filme-coral que se cruzam numa última – é ideal para se perceber o próprio Lowlife. É tão absurda que parece matéria de comédia brega, mas é tudo tão dramático e levado a sério que não sabemos como nos sentir. Ora vejamos uma das outras histórias que acabará por se entrelaçar a esta: Randy (Jon Oswald) acaba de sair da prisão, onde acabou de tatuar uma suástica gigante na cara (literalmente!), e vai ter que ir ajudar o seu melhor amigo, que até é preto, a resolver uns assuntos com dinheiro desaparecido com o tal Teddy Bear Haynes. Finalmente, a terceira e última história roda à volta de uma mãe (Nicki Micheaux) que vendeu a sua filha em criança, por estar agarrada ao álcool, e que agora pagou pelo seu rim, para dar ao pai que precisa de um transplante urgentemente.

As histórias de Lowlife são dramas de faca e alguidar, dignas de uma telenovela mexicana (não é por acaso que existe um luchador na trama, não é?), mas com personagens tão radicais (um lutador de luta livre mexicana com fama de super-herói que nunca tira a máscara, um ex-presidiário com a maior suástica de sempre tatuada na cara e uma mãe ex-alcoólica dona de um motel parecem as personagens de uma anedota sobre o de mais reles há na sociedade) que podiam fazer parte de um episódio insano do Rick & Morty. E, tal como esse, tem um mensagem moral escondida que, após um arco narrativo perfeito (e que, inesperadamente, faz todo o sentido), fecha tudo com chave de ouro e um lacinho em cima.

Desde que Pulp Fiction abalou os alicerces do cinema, no já longínquo ano da graça do Senhor de 1994, que muitos realizadores têm sido apelidados de sucessores de Quentin Tarantino e que outros tantos filmes têm sido comparados a esse. Guy Ritchie então até já enjoa com tanta comparação. No entanto, nunca apareceu um filme que fizesse tanto sentido comparar com Pulp Fiction quanto Lowlife. Pela estrutura narrativa, pelos diálogos escorreitos, pelo contraste entre situações fantásticas e o drama ou pela violência altamente estilizada. Digam lá que só este parágrafo não justifica um McRoyal Deluxe?

Título: Lowlife
Realizador: Ryan Prows
Ano: 2017

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