| CRÍTICAS | Ter e Não Ter

Consta que Howard Hawks fez uma aposta com Ernest Hemingway, em que era capaz de fazer um bom filme a partir do seu pior livro. Escolheu então Ter e Não Ter, alterou Cuba por Martinica e apagou uma série de baboseiras que não ajudavam em nada o desenlace narrativo e venceu o desafio.

No entanto, Ter e Não Ter é ainda lembrado por outro facto aparentemente trivial, mas decisivamente importante. Foi aqui que Humphrey Bogart e Lauren Bacall se conhecerem pela primeira vez, numa relação que se prolongou para fora do grande ecrã. E quem os vê inicialmente no filme percebe que ambos estavam destinados um ao outro, já que Bacall é uma espécie de retrato feminino do arquétipo do durão que Bogart construiu para si.

Ter e Não Ter é ainda uma espécie de variação de Casablanca – e, posteriormente, de Passagem para Marselha -, ora vejamos. Há uma localização exótica (Martinica em vez de Marrocos) e o mesmo pano de fundo, a Segunda Grande Guerra. Bogart é novamente um durão cínico, mas com valores, que parece ter um passado no armário que prefere não trazer cá para fora. E, por capricho do destino, vai ter que ajudar dois estrangeiros a darem o salto, desta vez ajudando a Resistência Francesa. E até há um pianista pelo meio (aqui é Hoagy Carmichael) a dar-nos música de vez em quando.

Obviamente que não podia faltar o elemento romântico a Ter e Não Ter. No entanto, a femme fatale de Lauren Bacall é extremamente diferente da de Ingrid Bergman, mais emancipada e com uma espécie de sexualidade latente, que fica bem expressa na fala que serve de imagem de marca ao filme: you know how to whistle, don’t you, Steve? You just put your lips together and… blow. Na recta final surge ainda outro elemento feminino na equação, Dolores Moran, mas nem sequer sombra lhe consegue fazer.

Ter e Não Ter é ainda pontuado por um par de situações e secundários que o tornam especial. O porte imperial do capitão francês, o gord(alhã)o Dan Seymour, marca presença, nem que seja pelo tamanho; os temas de Hoagy Carmichael, especialmente How Little We Know, cantado pela própria Lauren Bacall (se bem que o As Time Goes By, de Dooley Wilson, é uma melhor canção); ou o sidekick de Bogart, Walter Brennan, na pele de um bêbado incorrigível, mas por quem não conseguimos de deixar de sentir empatia e que serve para dar um leve espírito altruísta à personagem de Bogart, mesmo com alguns momentos mais imorais. Ter e Não Ter é mais uma variação de Casablanca, é certo, o milésimo filme em que Humphrey Bogart tem um barco e, claro, mais um dos seus muitos McRoyal Deluxes.

Título: To Have And Have Not
Realizador: Howard Hawks
Ano: 1944

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