| CRÍTICAS | Aniquilação

Deixem-me começar por tirar já isto do caminho. Aniquilação, o novo filme de Alex Garland, foi muito falado por não ter passado pelo cinema e ter estreado directamente no Netflix. O Guardian acha que é por o filme ser muito cerebral. Mas a verdade é que até o Guardian às vezes é parvo. Eu vi isto antes de ver o filme e confesso que, quando o vi, já ia de mãos nas ancas, sobrancelha franzida e a dizer “Vá! Mostra-me lá essa inteligência toda!”.

A verdade é que Aniquilação não é um filme particularmente inteligente (não mais do que a Guerra dos Mundos, por exemplo), mas isso também não é necessariamente mau. A não ser que se vá, como eu fui, com expectativas demasiado altas.

No início do filme cai um raio num farol que cria uma espécie de redoma à sua volta, em constante crescimento, e ninguém sabe muito bem o que se passa. Quando o marido de Lena (Natalie Portman) regressa de uma missão a essa redoma sem dizer coisa com coisa e aparentemente com o corpo a desligar-se, ela junta-se a uma expedição de quatro mulheres que vai tentar perceber o que é a redoma e o que é que ela “quer”.

É dentro da redoma que as possibilidades do filme se revelam. O bom da ficção-científica é permitir criar mundos sem restrições e a premissa do filme permite explorar esse mundo de uma forma surpreendente. Infelizmente, parece ficar só o potencial de uma grande ideia, explorada de forma pouco eficaz. Quando se cria um mundo [ligeiro spoiler] em que o ADN e a consciência dos seres vivos se fundem para criar novos organismos, as potencialidades são imensas. É pena que o filme não as explore mais. Em vez disso, opta por uma série de flashbacks melodramáticos e absolutamente desnecessários para dar uma ambiguidade à relação de Lena com o seu marido que não faz falta nenhuma a não ser para criar tensão a martelo.

A mutação das personagens umas nas outras, a transmissão de medos e traços de personalidade, as combinatórias possíveis de cruzamento de ADN e consciência entre animais, pessoas e plantas… Tudo isso são sugestões de um filme que poderia ter sido melhor. Ainda que, apesar de tudo, essa parte do meio do filme seja claramente o melhor dele.

É que quando chegamos ao final e nos é dada uma explicação para aquilo, parece que o filme perde as forças nas canelas para dar a última volta à pista. É o problema da ficção-científica: quanto mais arriscado é o mundo que se cria, melhor tem de ser a sua justificação. Aqui parece que resolvem o mistério com a habilidade e criatividade de uma criança de 12 anos a escrever o seu próprio episódio da série Quinta Dimensão. E a surpresa final revelada nos olhos das personagens é suficiente para dar um grito à televisão (ou, neste caso, ao computador).

Os filmes que têm potencial para ser muito melhores irritam mais do que os que, coitadinhos, nunca poderiam ir muito longe. E é por isso que este filme enerva. Porque poderia ser bem melhor do que a agradável matiné de domingo e o reconfortante, mas pouco entusiasmante McChicken da praxe.Título: Annihilation
Realizador: Alex Garland
Ano: 2018

* por Diogo Augusto

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