| CRÍTICAS | Como Falar com Raparigas em Festas

1977 – ano decisivo na história da música. No mesmo ano em que o Rei, Elvis Presley, morria e deixava toda uma geração órfã, o punk irrompia com toda a força, especialmente com os Sex Pistols a lançarem o seu único álbum (e com o single God Save the Queen a chegar ao mesmo tempo do jubileu da Rainha) e os Clash a assinarem por uma major. Com a contracultura a ser rechaçada, a guerra do Vietname a deixar a América destroçada, a morte de JFK, de Malcom X ou de Martin Luther King a acabarem com os sonhos de uma mudança e a crise e a inflação a ameaçarem tudo e todos, o punk abanava novamente os pilares da sociedade, lançando os jovens para uma nova emancipação através da música.

Como Falar com Raparigas em Festas, baseado no conto homónimo (e de alguma forma auto-biográfico) de Neil Gaiman, é portanto um filme não sobre a música punk em si, mas sobre o espírito punk como um todo. Não espere um documentário ou uma reconstrução de época; é algo mais simbólico, mais Velvet Goldmine, por exemplo. Por isso, não é por acaso que decorre precisamente em 1977. E que o seu protagonista seja um jovem inglês amante de punk.

Enn (Alex Sharp) é então um jovem rebelde que, numa noite com os amigos, acaba por acaso numa festa para o qual não foram convidados: uma festa de extraterrestres esquisitos, que estão na Terra de passagem, numa espécie de retiro. Enn e os amigos queriam ir a uma festa punk e acabam numa festa avant-garde, numa espécie de krautrock com o pós-modernismo da Grace Jones. É aí que Enn conhece Zan (Elle Fanning), uma jovem alien inconformada com o conformismo da sua espécie, e que recebe uma licença de 48 horas para ir explorar o mundo dos terráqueos e, claro, o punk. Obviamente que também sabemos o que acontece depois do boy meets girl, não é? E quando o amor é entre humanos e seres de outro mundo, este é obviamente proibido.

O punk funciona aqui como metáfora para o conformismo pré-determinado daquela raça de aliens, enquanto que estes são uma metáfora para com a sociedade inglesa circa 1977, quando o conservadorismo voltava a galgar barreiras, depois dos swinging sixties, da liberação sexual e de toda a conta-cultura. O pendor auto-biográfico da história – tendo em conta que Gaiman foi um puto salvo pela música em geral e pelo punk em particular – é reforçado pela cena final, com Enn crescido, autor de banda-desenhada, a dar autógrafos numa loja em que o Sandman está bem visível.

Tudo o resto é uma espécie de extravaganza, não tão camp quanto o Festival Rocky de Terror, mas mais musical que o psicadelismo de Gregg Araki. Nicole Kidman ainda dá um ar da sua graça, com o seu look à David Bowie em O Labirinto, e a banda-sonora é toda ela impecável, o que ajuda a tapar os buracos de quando tudo não está a fazer muito sentido. Como Falar com Raparigas em Festas pode não ser incrível nem fazer propriamente todo o sentido do mundo, mas é um McChicken que dificilmente irá esquecer. E de quantos filmes podemos realmente dizer isto?

Título: How to Talk to Girls at Parties
Realizador: John Cameron Mitchell
Ano: 2018

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