| CRÍTICAS | Unsane

Unsane é o mais recente filme de Steven Soderbergh e o terceiro desde que anunciou que não faria mais nenhum. Para um reformado, não está nada mal… É que só alguém muito ingénuo é que acreditaria que o hiperactivo realizador norte-americano iria conseguir ficar parado. Obcecado pela técnica e pela experimentação, Soderbergh não precisa de muito para fazer filmes e sempre que espirra tem um terminado. Por exemplo, para este Unsane apenas precisou de um iPhone. E consta que gostou tanto da experiência em filmar com um telefone que já anunciou que o seu próximo filme será feito com um também (se bem que não devemos confiar muito nos seus anúncios, não é?).

Com Unsane, Soderbergh regressa aos terrenos do thriller psicológico, depois de Efeitos Secundários, filme interessante que foi pouco visto. Aliás, parece que cada vez há menos gente a ver os filmes de Soderbergh, não acham? Tal como Efeitos Secundários, o lugar de protagonista é ocupado por uma mulher: Claire Foy é uma executiva que acaba de se mudar para uma cidade nova, onde tem um emprego que domina, mas aparentemente poucos amigos. Depois, um engate no Tinder acaba a meio com uma crise psicótica e ficamos a saber que ela teve um stalker há bem pouco tempo, que deixou mazelas psicológicas.

Claire Foy vai então falar com uma psiquiatra e já não sai mais do hospício. O internamento não é forçado, mas também não se pode dizer que seja compulsivo. É mais um pequeno emaranhado burocrático que se vai apertando à medida que Claire Foy estrabucha. Um pequeno pesadelo kafkiano, que a atira para um meio estéril, cheio de pessoal amalucado, onde os médicos falam todos com falinhas mansas, o que é extremamente irritante. Mas Unsane não é tanto o Voado Sobre um Ninho de Cucos, é mais o BZ – Viagem Alucinante. Estão a perceber para onde a coisa se dirige?

Tal como a protagonista, também nós começamos a duvidar do que é realidade e do que não é. E preparamo-nos para um twist iminente, que explique tudo o que está a acontecer. Claire Foy está mesmo demente ou não? O seu internamento foi voluntário ou é tudo uma marosca dos seguros? E o seu stalker, Joshua Leonard (esse mesmo, o actor de O Projecto Blair Witch), é mesmo aquele enfermeiro que parece abusar da sua medicação ou não? Contudo, o maior twist de Unsane é que… não tem twist. Ou será que o twist é mesmo esse, o de pensarmos que não tem twist?

O que é certo é que, sem uma reviravolta no argumento, Soderbergh vê-se obrigado a ter que arranjar saída para o labirinto onde se enfiou e a solução não é fácil. Unsane torna-se vítima de si próprio e acaba por enveredar por um caminho de clichés, buracos no argumento e soluções pouco credíveis, que tiram interesse ao crédito que o filme havia acumulado na primeira metade. Mas obviamente que um filme como Unsane tem mais do que se lhe diga. É que o facto de ter sido filmado com um telemóvel, apesar de lhe dar aquele ar granulado de vídeo porno tipo Fake Taxi ou isso, com um formato esquisito de 1,56×1, permite a Soderbergh uma liberdade de movimento que resulta em vários planos enviesados e imprevisíveis, mais perto das fotos do instagram do que do cinema, que ajudam a conferir-lhe uma sensação de paranóia e claustrofobia. Portanto, Usane é um McBacon desequilibrado, mas deliciosamente desequilibrado.

Título: Unsane
Realizador: Steven Soderbergh
Ano: 2018

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