| CRÍTICAS | Knife + Heart

Depois da overdose de filmes a emularem os anos 80 que entupiram 2017, a reboque sobretudo de Stranger Things (e até a edição do MotelX do ano passado reflectiu essa tendência, com Super Dark Times, por exemplo), não deixa de ser quase estranho ver um filme como Knife + Heart. É que este surge em contramão, como homenagem a um cinema de outra década, o dos anos 70, o da contra-cultura e dos excessos.

Ambientado em 1979 – e filmado em 16mm, numa recriação de época que é também na atmosfera que cria -, Knife + Heart passa-se nos meandros da indústria porno de série b, se bem que não seja propriamente um filme queer. Ou, pelo menos, um filme activista. Isto no sentido em que, se se passasse no mundo da indústria do cinema porno heterossexual, não haveria grandes mudanças na história. Aqui, o queer é mais um veículo para explorar as fantasias, medos e obsessões tanto do realizador quanto dos espectadores.

Vanessa Paradis é então realizadora de filmes gay manhosos, juntamente com a sua sócia, editora e ex-namorada, Kate Moran. A relação pessoal delas terminou, mas Vanessa Paradis está com dificuldades em o aceitar e em seguir em frente. E isso pode vir a afectar a sua relação profissional também. No entanto, tudo isto terá que ficar para segundo plano quando entra em cena um misterioso assassino em série, que começa a esventrar o seu elenco um a um, com um dildo-faca.

O realizador Yann Gonzalez descreveu o seu filme como um comboio-fantasma sexual. Knife + Heart é uma espécie de fusão entre A Caça, esse clássico do underground homossexual e s&m dos anos 70 (apesar de estreado em 1980), e O Demónio de Néon, sem a estilização formal de Nicolas Winding Refn. No entanto, a principal influência de Knife + Heart é o giallo italiano, com todo o barroquismo de Dario Argento e o sangue e as facadas de um Mario Bava. Brian de Palma também aparece a acenar aqui, mas quando falamos dos giallos fica implícito que também estamos a falar dos seus policiais, não é?

É todo um livro de intenções que Yann Gonzalez coloca em prática, por vezes até em detrimento do próprio filme, que pedia um bocadinho mais de atenção. Especialmente a personagem de Vanessa Paradis e a sua relação de amor-ódio, de atracção e repulsa, com Kate Moran, que merecia ser melhor explorada. Assim, Knife + Heart revela-se um interessante exercício estilístico, com meia-dúzia de cenas de filmes gay de série b extremamente divertidas, uma sequência depois dos créditos bem intrigante e um McChicken para levar para casa. 

Título: Un Couteau Dans Le Couer
Realizador: Yann Gonzalez
Ano: 2018

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