| CRÍTICAS | Hiroshima, meu Amor

Nesta onda de reposições, tem havido uma aposta em três tipos de filmes, a saber: os clássicos da época áurea de Hollywood (olá Casablanca), os filmes de culto de autores do mundo (olá Bergman, olá Ozu) e o cinema de autor europeu. É nesta última equipa que se insere este Hiroshima Meu Amor, obra maior do francês Alain Resnais, que ainda anda por cá a fazer filmes, mas já não muito relvantes.

Hiroshima Meu Amor começa como uma dedicatória a Hiroshima, uma das duas cidades japonesas marcadas pelo ataque com a bomba atómica, no princípio do fim da Segunda Grande Guerra. Uma sucessão de imagens tipo postal de férias, uns travellings pela cidade e found footage do bombardeamento (imagens fortes, muito fortes) – eis os resquícios do documentário inicial que era para ser este filme, antes de Resnais decidir incorporar uns elementos de ficção. Depois arranca o filme propriamente dito.

Entramos então na intimidade de uma one night stand entre a francesa Elle (uma deslumbrante Emmanuelle Riva muito fresquinha), actriz no seu último dia de filmagens de um filme de guerra na cidade, e o japonês Lui (Eiji Okada), um arquitecto seduzido pela oportunidade. O que parecia ser um simples fling de uma noite acaba por se estender num romance muito mas sério, numa espécie de antecessor de Antes do Amanhecer, mas em formato mais sério (e mais poético, ou não fossem os diálogos escritos por Marguerite Duras).

Hiroshima Meu Amor é, provavelmente, o primeiro filme intercultural da história, numa relação em que o ocidente encontra o oriente. No entanto, este encontro é ainda mais ambicioso do que isto, já que é também o encontro entre inimigos, numa guerra que então ainda estava bem presente na memória colectiva do público. Hiroshima Meu Amor é uma metáfora acutilante ao conflito, dando ao mesmo tempo os dois lados da msma moeda, em que esta é a cidade de Hiroshima e em que cada lado é uma das perspectivas de que o mundo tinha (tem?) dela: de um lado a visão ocidental, de que Hiroshima foi o princípio do fim da guerra e um mal necessário à felicidade global; e do outro a visão oriental, em que foram vítimas de um sofrimento que não pediram.

Resnais não tira lados, nem procura dar respostas, mantendo-se neutro; ele só nos quer fazer reflectir, até porque foi sempre um tipo comprometido com estes temas. Aliás, é nesta procura pela neutralidade, que Hiroshima Meu Amor dá um pontapé no ar, no pasado recambolesco de Elle, que envolve alemãos (e, se fizermos muita força, uma sugestão de culpa colaboracionista). Fora isso, Resnais monta aqui um grande romance, mas também um filme tecnicamente à frente do seu tempo, quando a nouvelle vague era mesmo uma brisa de ar fresco e não uma múmia que, de quando em vez, ainda aparece por aí cheia de teias aranha. Pode-se mesmo dizer que Hiroshima Meu Amor é O Mundo a seus Pés europeu.

Filme que envelheceu bem, ganhando uma patine romântica e, de certa forma, nostálgica, Hiroshima Meu Amor só peca mesmo por aquele subplot mirabolante da juventude francesa de Elle, na cidade de Nevers (hábil jogo de palavras de Resnais). Fora isso, tudo sabe a um McBacon gourmet.Título: Hiroshima, Mon Amour
Realizador: Alain Resnais
Ano: 1959

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