| CRÍTICAS | Nunca Estiveste Aqui

A galesa Lynne Ramsay, autora do desconcertante Temos de Falar Sobre Kevin, imiscuiu-se num território normalmente masculino e assinou um filme de vingança bem brutal. E Nunca Estiveste Aqui deixou muito boa gente desconcertada, sem saber bem como reagir. Em Cannes, por exemplo, reagiram com espanto e surpresa, tendo o filme sido fortemente ovacionado. Estava assim lançado para a ribalta.

Joaquin Phoenix, cada vez maior e de barba mais longa, é um assassino a soldo que recupera miudinhas raptadas. E, tal como a maioria destes vingadores, Phoenix é igualmente solitário. Estamos habituados a vê-los de forma introspectiva, desde a cara de quem tem dor de barriga de Alain Delon ao casaco com um escorpião de Ryan Gosling ou ao vaso com a planta de Jean Reno. Joaquin Phoenix segue essa tradição solitária e silenciosa, tendo, nos raros momentos em que abre a boca, a companhia da mãe vellhinha (Judith Roberts), de quem toma conta.

Mas não é só a mãe que Joaquin Phoenix tem na sua bagagem emocional. Uns flashback esparsos e pouco informativos vão dando-nos algumas pistas para percebermos o seu trauma: ex-combatente da guerra no Afeganistão, vítima de abusos de um pai autoritário e tendências suicidas. Ou seja, um pacote de características ideais para quem anda a matar pessoas por encomenda. Por isso, quando o seu próximo trabalho, para recuperar a filha de um senador de uma rede de prostituição clandestina, destapa uma rede maior do que parecia, os efeitos colaterais vão atingir a mãe de Phoenix. E ele vai querer vingar-se. Com um martelo de bola!

Lynne Ramsay teve a ver Oldboy – Velho Amigo e não é só porque a arma preferencial de Phoenix é a mesma. É porque as explosões de violência são semelhantes, evitando o grafismo das cena em si e focando-se apenas na brutalidade da violência do aftermath. Mas Nunca Estiveste Aqui não é um revenge movie convencional. É que, enquanto Phoenix persegue os bandidos, mergulhamos nos seus traumas e nas seus psicoses, numa trip não tão formalista quanto um Nicolas Winding Refn, mas em que a banda-sonora sincopada de Jonny Greenwood, dos Radiohead, ajuda a dar forma.

O problema de Nunca Estiveste Aqui é que nunca parece apenas um filme, mas antes várias camadas sobrepostas de diferentes filmes. É quase como se Lynne Ramsay tentasse misturar água e azeite, mas eles teimassem em se separar em duas entidades diferentes. Por isso, ao degustar este Double Cheeseburger, nunca vamos sentir uma explosão de sabores na boca. Vamos sempre conseguir distinguir muito claramente o sabor da carne, depois o do queijo, o da alface e no fim o do pão.Título: You Were Never Really Here
Realizador: Lynne Ramsay
Ano: 2017

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