| CRÍTICAS | Toni Erdmann

Pouco tempo depois de Toni Erdmann se ter tornado num mini-fenómeno do cinema Europeu, com uma acusação de roubo em Cannes (o vencedor, Eu, Daniel Blake, não era o favorito da crítica nem de perto nem de longe), uma nomeação ao Oscar e um prémio Lux, foi anunciado um remake norte-americano com Jack Nicholson no papel principal. Parecia demasiado perfeito para ser verdade e, no fundo, deve ter sido mais wishful thinking do que uma real possibilidade.

Como esse remake nunca foi para a frente (amém, parem lá com essa parvoíce de refazerem os filmes estrangeiros de sucesso em americanices apenas para pouparem em legendas), resta-nos o filme original. Toni Erdmann é a história de um pai, Winfred (Peter Simonischek), que tenta reconectar-se com a filha, Ines (Sandra Hüller), numa altura em que parece estar a reavaliar a vida: vive sozinho, a mãe está cada vez mais velha e o cão acabou de morrer. Porque não quer perder também a filha de vez, Winfred viaja de surpresa para Bucareste, onde a filha é uma executiva de sucesso, e acaba por entrar na sua vida com a mesma subtileza de um pé-de-cabra.

O problema é que a vida da filha também está cheia de obstáculos. Uma carreira eticamente duvidosa, que se teima em colocar à frente da sua vida pessoal, e que não a ajuda a ter tempo para si própria, quanto mais para o pai, com quem tem uma relação disfuncional. Por isso, Winfred – que tem um senso de humor… particular, ali bem perto do irritante, tipo Andy Kaufman – tem uma ideia: cria um alter-ego, de dentes podres postiços e cabeleira farta – o Toni Erdmann do título – e infiltra-se na vida profissional da filha.

Agora, estão a fazer um ao outro aquilo que tão bem fazem a si próprios, mas de forma involuntária: sabotarem-se. E à medida que o vão fazendo vão derrubando barreiras que haviam construído entre si. De forma pouco convencional (ou a fazerem planos pouco “normais” entre pai e filha, como… snifar coca(!)), os dois acabam por se libertar das roupas que os estão a deixar viver a vida. E quando falamos em “libertar das roupas” é mesmo literal, porque há uma cena decisiva: uma festa nua de aniversário com os colegas de escritório de Ines (considerada inclusiva a cena de nu do ano para a revista Vulture).

O problema de Toni Erdmann é que tanto essa cena, como uma outra que são os momentos-chave do filme (em que Ines canta The Greatest Love of All, da Whitney Houston), nunca parecem que são o desfecho do argumento, mas antes checkpoints onde o argumento se obriga a ir. Uma espécie de realismo meio-forçado, que tira força a um filme que, mesmo com quase três horas, parece ter sempre gordura a mais e nervo a menos. É um interessante Double Cheeseburger, mas todo o fenómeno de 2017 parece manifestamente exagerado.

Título: Toni Erdmann
Realizador: Maren Ade
Ano: 2016

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