| CRÍTICAS | Brincadeiras Perigosas

Quando Brincadeiras Perigosas estreou no festival de Cannes, consta que metade do público não aguentou e saiu da sala. Esse gesto marcaria para sempre a relação do trabalho do realizador Michael Haneke com o público e a crítica. Por um lado, é acusado de ser vil, morar, violento e gratuito; por outro, tornou-se num autor respeitado, subversivo, que ganha Palmas d’Ouro e até um Oscar.

Brincadeiras Perigosas não podia ser um melhor cartão de visita. Haneke, austríaco de nascença, entrava no cinema e dinamitava por completo tudo aquilo em que o cinema de terror havia caído na última década e meia, numa crítica velada à estilização da violência, que levara o público a uma dormência sensaborona. E, apesar de nunca ser gráfico e ser sempre por sugestão, Haneke levava as pessoas a abandonar a sala, anos antes do torture porn tentar fazer e raramente o conseguir.

Brincadeiras Perigosas é então a história de dois jovens austríacos bem-falantes, educados e, aparentemente, jóias de miúdos – Paul (Arno Frinsch) e Peter (Frank Giering) -, que invadem a casa de campo de uma família em férias para os torturarem sem motivo aparente. Angústica adolescente canalizada pela violência apreendida no cinema de molde anglo-saxónico ou simplesmente crueldade e amoralidade gratuita? A resposta nunca é clara e ambas as hipóteses são igualmente válidas.

Ao mesmo tempo que subvertia o slasher e o horror movie norte-americano, Haneke fazia o mesmo com o cinema heimat austro-germânico: o cinema bucólico e pastoral com queda para o sentimentalismo, que explorava ainda as dicotomias entre o campo e a cidade, entre os novos e os velhos. Afinal de contas, que outro filme tem um choque de gerações como este, em que dois jovens adultos vêm acertar contas com a geração dos seus pais?

Brincadeiras Perigosas introduzia assim as marcas que viriam a construir o corpo de obra de Michael Haneke: o cinema seco; muita violência, que pode ser física como emocional, mas que é mais sugerida do que mostrada (e aqui vai haver crianças mortas, tortura e muita crueldade); a ausência de banda-sonora; e o filme de actores, a quem exige compromisso total. Brincadeiras Perigosas não é, nem de perto nem de longe, o melhor filme de Haneke, mas é um cartão de visita certeiro. E, dez anos depois deste McBacon, o austríaco cumpria o sonho de refazer o filme nos Estados Unidos, acabando por dinamitar os alicerces daquele cinema que procurava criticar aqui.

Título: Funny Games
Realizador: Michael Haneke
Ano: 1997

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