| CRÍTICAS | Becky

As crianças são aquela coisa frágil e preciosa, que queremos abraçar e pegar ao colo, para proteger no regaço contra todos os males do mundo. Ou pelo menos até elas começarem a olhar para nós com o Diabo nos olhos e a planear matarem-nos. Existe toda uma tradição de crianças aterradoras, cruéis e/ou assassinas no cinema que continuam a fazer-nos pesadelos à noite, de O Génio do Mal a Hard Candy.

Becky é mais um filme para inserir nesta linhagem, sobre uma miudinha adorável que se transfigura numa assassina implacável e vingativa. No entanto, no início nada parece encaminhar para essa via. Becky (Lulu Wilson) é apenas uma jovem revoltada com o mundo, que ainda não conseguiu aceitar a morte precoce da mãe e que, por isso, é o pai (Joel McHale) que leva por tabela. Contudo, Becky vai ter a oportunidade perfeita para exteriorizar toda aquela teenage angst, quando a sua casa de férias é invadida por um grupo de ex-presidiários em busca de uma chave qualquer, liderados pelo supremacista branco Dominick (Kevin James). Será que James Dean, em Fúria de Viver, também fosse ameaçado por um assassino nazi iria canalizar a sua teenage angst em fúria assassina?

Becky caminha na ténue linha entre a seriedade e a irrisão. Não há nada de mal em abraçar o género por completo, como o exagero de A Babysitter; o problema é quando um filme passa o tempo todo a tentar levar-se a sério e, no último quarto de hora, atira o argumento às urtigas. A menos que sejamos o Eli Roth, em A Cabana do Medo, claro.

Assim, após uma primeira parte em que Becky se consegue equilibrar nos códigos do género do Survivor e do vengeance movie, mas com a subversão de ser com uma criança (que não tem pejo em utilizar lápis de cor para esfaquear os maus ou transformar pistolas de água em lança-chamas, por exemplo) – alguém tem chamado a Becky de Sozinho em Casa versão sangrenta -, o filme acaba por cair na irrisão, levando o exagero longe de mais. Becky começa a conduzir carros, barcos e moto-4, enquanto mata maus à parva e o gore se torna cada vez mais gráfico sem necessidade.

No final, a surpresa acaba por ser, não a jovem Lulu Wilson, mas Kevin James, que tem aqui o seu primeiro papel dramático. Obviamente que é fácil parecer assustador quando temos uma suástica gigante tatuada na nuca (e como braço direito o gigante do wrestling, Jonathan Milott), mas para quem está habituado a ver James em sitcoms sem graça nenhuma, Becky acaba por ser uma agradável surpresa positiva. Contudo, este Cheeseburger promete muito mais ao início do que cumpre no final.

Título: Becky
Realizador: Jonathan Milott & Cary Murnion
Ano: 2020

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *