| CRÍTICAS | O Fantasma da Liberdade

As conversas são como as cerejas, já diz a sabedoria popular, umas vêm atrás das outras. Começamos a falar de um episódio simples sobre algo que vimos na televisão na noite anterior e rapidamente terminamos numa discussão complexa sobre o mais profundo significado da vida. É assim O Fantasma da Liberdade, um filme que é como as cerejas, em que as conversas vêm atrás umas das outras.

Luis Buñuel, o mais famoso dos realizadores surrealistas de todos (graças a esse filme de culto que é Um Cão Andaluz, a curta-metragem feita a meias com Salvador Dali), terminou a sua carreira a utilizar o surrealismo como ferramenta para fazer uma crítica de costumes ácida e mordaz. E O Fantasma da Liberdade, apesar de não ser o seu último trabalho (ainda haveria Este Obscuro Objecto de Desejo), é aquele que cristaliza tudo isto, numa espécie de filme-testamento derradeiro. Primeiro porque aprimora O Charme Discreto da Burguesia, considerado por muito boa gente como a sua obra-prima; e segundo porque apura todos esses seus temas e elementos que fazem parte do seu corpo de obra, incluindo… aranhas.

O Fantasma da Liberdade é um filme que não tem propriamente uma estrutura narrativa convencional (a liberdade não está só no título, está também na forma como Buñuel abordava o cinema), já que é um agregado de situações, mais ou menos conexas. Em comum têm o facto de serem, de alguma forma, uma crítica subversiva aos morais da sociedade ocidental, particularmente a francesa, do qual Buñuel se tornou num espectador privilegiado. E vai haver de tudo, entre o provocador e o absurdo: incesto, sexualidade, fetiches, política, religião…

O Fantasma da Liberdade é uma comédia, com o dedo acutilaste de Buñuel, que tem um momento épico – uma famosa cena em que um grupo de comensais se senta em sanitas, em redor de uma mesa, de onde se ausentam de vez em quando para irem comer, resguardados, numa casa-de-banh…, perdão, numa sala-de-jantar – e um par de cenas completamente no ponto. Destaque para o grupo de frades que vão ao quarto de uma hóspede, numa pensão, para rezarem pelo sue pai enfermo, e terminam todos a jogar às cartas, a beber e a fumar, ou para a sequência da criança que é abordada por um dirty old man no jardim, que lhe mostra fotografias obscenas de… monumentos.

O surrealismo tinha inicialmente o objectivo de causar desconforto no espectador. Quase 50 anos depois de Um Cão Andaluz, Buñuel passa a utiliza-lo como forma de descontrair e criticar o lado mais podre da sociedade, apresentando ao espectador sempre o lado oposto do que é expectável. Mais 50 anos depois e O Fantasma da Liberdade continua fresco, nada datado e original. O McRoyal Deluxe não ganhou nem uma pinga de bolor.

Título: Le Fântome de la Liberté
Realizador: Luis Buñuel
Ano: 1974

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