| CRÍTICAS | Johnny Guitar

Todo o cinéfilo português (e, se calhar, alguns estrangeiros também) sabe que o filme favorito de João Bénard da Costa era Johnny Guitar. O seu amor pelo filme era tão grande que, como escreveu Luís Mendonça em À Pala de Walsh, este pode ter sido realizado por Nicholas Ray, “mas quem o realizou na nossa memória e no nosso coração foi João Bénard da Costa”. Por isso, sempre que vemos Johnny Guitar existe um momento em que nos interrogamos se o entusiasmo pelo filme é mesmo nosso ou não.

De facto, como qualquer filme de culto, Johnny Guitar foi mal recebido pela crítica. Provavelmente, porque era um filme à frente do seu tempo. Afinal de contas, é um western feminino, em que as mulheres são as protagonistas. E isso era quase um contra-senso, tendo em conta que os filmes de caubois sempre foram coisas de homens de pelo no peito, cheios de testosterona e, de preferência, alguma misoginia. O público é assim apanhado de surpresa e, por momentos, teme ter entrado num melodrama e sente-se enganado. Mas não, Johnny Guitar é um filme de conflitos. Todas as personagens estão em conflito (consigo e com os outros) e todos (todos mesmo!) os diálogos são discussões.

Apesar de chamar Johnny Guitar, este (interpretado pelo inesperado Sterling Hayden, que… nem sabia tocar guitarra) é apenas um figurante no seu próprio filme. A protagonista é Joan Crawford, ou seja, Vienna, a dona de um saloon-casino num lugarejo qualquer no Oeste selvagem, que aguarda pela chegada do comboio à cidade para aumentar a freguesia do seu boteco. No entanto, a população local tem outros planos e prefere que ela se vá embora, especialmente porque estão a ser manipulados pela invejosa Emma (Mercedes McCambridge).

Ate na temática há uma inversão de papeis em Johnny Guitar. Afinal de contas, uma das características do western sempre foi a apologia do progresso, ou não fosse a conquista do Oeste feita em nome deste progresso, um bem maior que os índios, esses bandidos selvagens, não tinham direito a travar. Por isso, o conflito é permanente. O de Vienna e Emma, despoletado pelos ciúmes da segunda em relação a Dancin’ Kid (Scott Brady), o de Dancin’ Kid e o próprio Johnny Guitar (o forasteiro, que chega para se reencontrar com Vienna 5 nos depois da sua separação) que vão lutar pelo amor de Vienna, ou o de Johnny Guitar com Bart (Ernest Borgnine), um dos membros da gangue de Dancin’ Kid.

Johnny Guitar é o primeiro trabalho de Nicholas Ray depois de ter saído da RKO e é um filme de baixo orçamento, filmado em Trucolor, uma espécie de Technicolor manhoso. Isso permite a Ray exagerar no uso da cor e permite-lhe trocar o negro com que Joan Crawford traja na primeira metade pelo amarelo e vermelho com que surge para o grand finale. É neste terceiro acto que Crawford e Mercedes McCambridge se vão enfrentar olhos nos olhos, num confronto que não deixa de ter ecos vindos de fora do ecrã. Afinal de contas, tornou-se lenda o mau feitio da primeira e os ciúmes para com a segunda, que a levaram inclusive a destruir-lhe o guarda-roupa por duas vezes durante a rodagem.

Apesar de só tocar guitarra uma vez, Johnny Guitar influenciou Sergio Leone a dar uma harmónica para as mãos de Charles Bronson, em Aconteceu no Oeste, que, por sua vez, influenciou Quentin Tarantino a dar uma flauta a David Carradine em Kill Bill. Só por isso, já merecia o McRoyal Deluxe. Mas Johnny Guitar é ainda mais entusiasmante que isso. E, para mais, era o filme favorito de João Bénard da Costa.

Título: Johnny Guitar
Realizador: Nicholas Ray
Ano: 1954

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