| CRÍTICAS | A Mosca (1958)

Os casos de remakes que são melhores do que os filmes originais são tão raros que, praticamente, sabemos-los todos de cor. O Veio do Outro Mundo, o Scarface – A Força do Poder, O Falcão de Malta e A Mosca. Certo? Sim e não. Quer dizer, A Mosca pode ser melhor do que o original de 1958, mas este merece bem mais amor da nossa parte do que normalmente recebe.

Contudo, tudo começa como um thriller policial. Uma mulher (Patricia Owens) é apanhada a matar o marido (David Hedison). Quer dizer, primeiro só vemos um corpo ensanguentado, com a cabeça desaparecida entre as duas pás de uma renda industrial, mas ela rapidamente confessa o crime. O cunhado, Vincent Price, não aceita a explicação de que ela enlouqueceu, mesmo que ela ande obcecada em apanhar uma mosca de cabeça branca. E lá consegue engendrar um plano para ela confessar. E A Mosca volta ao início, numa longa analepse.

A Mosca torna-se então num sci-fi série b que tem logo o condão de esconder muito bem o seu baixo orçamento. É certo que o laboratório de David Hedison são só uns tubos de neon que piscam em florescente, mas tudo é muito clean e sofisticado, dando-lhe um ar sério, credível e realista. E que está David Hedison a inventar? Um sistema de teletransporte que vai revolucionar a vida como a conhecemos e acabar com a fome no mundo(!).

No entanto, ao experimentar teletransportar-se a si mesmo, Hedison não nota que uma mosca entrou na máquina e o seu ADN acaba entrelaçado com o do insecto. Agora, existe um cientista com a cabeça e um braço de mosca, enquanto algures voa alegre e contente uma mosca com cabeça e braço humana. Em O Inquilino, esse filme-súmula sobre o tema da duplicidade, há um diálogo incrível de Polanski, que pergunta em que momento é que um indivíduo deixa de ser ele mesmo. Se nos cortarem a cabeça diremos eu e a minha cabeça ou eu e o meu corpo?

A Mosca responde a essa questão sem se aperceber: eu e a minha cabeça! Ou seja, o cientista fica com uma cabeça de mosca, mas continua lúcido e racional. Ou, pelo menos, até a mosca começar a tomar conta do seu juízo. Por isso, a única forma que encontra para resolver a situação é pedindo à mulher para o matar na prensa. E é aí que A Mosca se torna assumidamente num filme sobre a eutanásia. Algo que é ainda mais reforçado na cena final, um icónico momento entre o espanto, um autêntico uau, e os maus efeitos-especiais, que fazem com que o filme pudesse ser um dos grandes episódios da Quinta Dimensão.

O realizador Lurt Neumann, que não viveu o suficiente para ver o seu filme no grande ecrã, foi um tarefeiro de série b profícuo e, por isso, sente-se como peixe na água. Gere com mestria o suspense e resiste à tentação de só mostrar a criatura já bem perto do fim, até porque sabe que o seu monstro é apenas um bug-eye-monster. Mesmo assim é um bug-eye-monster bem mais catita que o brundlefly de Cronenberg. A sério, A Mosca original precisa de mais carinho do que aquele que tem recebido até agora. Em vez de ser relembrado como um série b camp, deve ser antes recordado como um delicioso McRoyal Deluxe.

Título: The Fly
Realizador: Lurt Neumann
Ano: 1958

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