| CRÍTICAS | Cujo – O Novo Símbolo do Terror

Stephen King já confessou que escreveu Cujo numa altura da sua vida em que tinha mais álcool que sangue nas veias e que, por isso, não se lembra de o ter feito. No entanto, nada disso impediu que o livro fosse adaptado ao grande ecrã. E, na altura, nem sequer havia a Netflix, que agora parece adaptar tudo o que o Mestre do Terror rabisca. Consta que vai a Netflix está mesmo a produzir uma adaptação da lista de compras da semana passada de King.

Cujo – O Novo Símbolo do Terror é uma salgalhada que levanta logo algumas dúvidas na escolha da sua criatura assustadora. Ok, o filme é sobre um cão assassino, que foi mordido por um morcego raivoso e ganhou institutos homicidas. Mas a sério que tinha que ser um São Bernardo? De todas as raças existentes no mundo, será mesmo o São Bernardo, esse símbolo do humanismo e dos resgates dos montanhistas nos Alpes suíços, o mais assustador? Claro que essa pode ter sido uma opção subversiva, mas há pouco para ler nas entrelinhas de Cujo – O Novo Símbolo do Terror.

É assim difícil manter a suspensão da descrença perante um cão que parece um peluche gigante. A solução do realizador Lewis Teague é ir ensanguentando-o de cena para cena, mas isso também não ajuda, porque nada se passou entretanto para o cão estar mais sujo. Enfim, caso consiga pôr isso para trás das costas, o resto também não ajuda. É que os problemas do enredo também têm pouco a ver uns com os outros. Há uma família que ninguém sabe o que faz, mas que vive numa mansão e tem uma colecção de carros desportivos, cujo filho (Danny Pintauro) vê monstros à noite no escuro do quarto, e a mãe (Dee Wallace) está a ter um caso com o melhor amigo do pai (Daniel Hugh Kelly).

Depois anda-se ali um pouco às voltas e a mãe e o filho hão de ficar encurralados no carro, à porta do mecânico, com Cujo a fazer-lhes uma esperinha. Será o cão uma metáfora para os pesadelos que regressam para nos atormentar? Pode ser, mas isso somos já nós a fazer wishful thinking, porque projectar uma traição no casamento num demónio dos infernos em forma de cão que quer abocanhar tudo o que mexe é um pouco… criativo a mais. Mas é precisamente esse último quarto o melhor do filme.

Cujo – O Novo Símbolo do Terror transforma-se então num survivor movie, com mãe e filho fechados num carro à torreira do sol, com o pequeno a ter ataques de asma (talvez tivesse sido boa ideia ter revelado essa condição do pequeno noutra parte qualquer do filme, para que não parecesse ter sido metido a martelo) e o cão cá fora à espera ou a carregar sobre o carro. O pequeno Danny Pintauro, que se estreava no cinema, é um autêntico stream queen (King?), e Dee Wallace secunda-o como pode. Depois vão todos para casa, matar a fome com um Cheeseburger, porque o filme termina abruptamente, até porque após o cão morrer já não tinha nada para dizer.

Título: Cujo
Realizador: Lewis Teague
Ano: 1983

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