| CRÍTICAS | Tudo Pelo Vosso Bem

2019 foi o ano em que os Vingadores derrotaram Thanos, Jean Grey se tornou na Fénix Negra e o Homem-Aranha teve que defrontar Mistério. E, mesmo assim, o vilão mais assustador desse ano foi Laura Dern, na pele de uma advogada em Marriage Story. É certo que os advogados são das coisas mais assustadoras do mundo, mas quer dizer, Thanos matou metade da população mundial com um estalar de dedos.

Foi preciso chegarmos a 2021 para encontrarmos um vilão capaz de rivalizar com Marriage Story. E, tal como Dern, Rosamund Pike não precisa de poderes especiais. Em Tudo Pelo Vosso Bem, ela é uma cuidadora que, com a cumplicidade de médicos e directores de lares, se torna na tutora oficial de velhinhos ricos e passa a gerir os seus bens, sempre em benefício próprio, sem qualquer pejo em fazer o que for preciso para afastar os familiares. Pike é implacável e não tem qualquer remorsos. E sempre que dá uma baforada no cigarro-electrónico dá-nos um arrepio da espinha.

Pike e a sua assistente/namorada (Elza González) têm um novo caso nas mãos, que parece ser (mais) uma galinha de ovos de ouro: Dianne Wiest é uma avozinha adorável, rica e sem qualquer família que se possa meter no caminho. Por isso, num par de cenas, Pike consegue um diagnóstico da médica a dá-la como demente e uma ordem do tribunal para a fechar num lar, enquanto se torna tutora de todos os seus bens. O problema é que Wiest não é propriamente quem parece ser e traz um lastro pesado consigo. É ele Peter Dinklage, o próprio halfman Tyrion Lannister, um mafioso tão cruel quanto Pike.

Tudo Pelo Vosso Bem é então um thriller amoral e sem escrúpulos, onde duas pessoas sem sentimentos pelo próximo fazem tudo o que está ao seu alcance para levarem a sua avante. Tudo Pelo Vosso Bem consegue ser um filme em que odiamos toda a gente, já que não há aqui heróis nem anti-heróis, todos são vilões. E isso significa amealharem o máximo de dinheiro possível. É ainda uma espécie de comédia negra, que há de desabrochar numa sátira total, com Rosamund Pike a fazer o mesmo papel que fazia Em Parte Incerta. É quase como se fosse uma sequela, mas com um melhor guarda-roupa, como se tivesse sido uma fusão de um livro de Gillian Flynn com O Diabo Veste Prada.

Mas nem tudo são flores no caminho de Tudo Pelo Vosso Bem. Ao contrário do filme de David Fincher, em que a história era igualmente pouco realista, mas não tínhamos problema em a engolir, aqui temos dificuldade em acreditar em meia dúzia de coisas. E depois há um par de buracos de argumento, mas há um tão, mas tão grande, que por mais que olhemos para o lado não o conseguimos ignorar. E isso faz com que ele vá crescendo até ocupar todo o espaço na nossa mente. Isso não faz com que Tudo Pelo Vosso Bem seja dispensável; mas o Double Cheeseburger explica que é mais ou menos rapidamente esquecível.

Título: I Care a Lot
Realizador: J Blakeson
Ano: 2020

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