| CRÍTICAS | Greed

Agora que assistimos à queda do milésimo milionário (como disse o próprio uma vez a Rui Costa, fuck him… vocês sabem de quem estou a falar), é altura para mais uma vez reflectirmos por que continuamos a colocar em pedestais todos estes tipos que toda a gente sabe que fazem fortuna à conta da miséria humana e da exploração de terceiros. Está mais do que na altura de acabarmos com essa adoração sem limites ao capitalismo, esquecermos a treta do empreendedorismo e enterrarmos a narrativa da meritocracia.

Caso tenham dúvidas é assistir a dois filmes: Fyre, o documentário que mostra que empreendedores, startups, websummits e afins é tudo areia do mesmo saco; e Greed, esta sátira acutilante e de dentes cerrados ao capitalismo, que cria uma figura fictícia, mas que podia muito bem ser uma série de gente que vemos diariamente nas notícias, e a coloca em situações tão irreais que poderiam muito bem ser verdadeiras.

Essa figura é Sir Richard McCreadie (logo o nome é todo ele um tratado ao nível de um Scrooge McDuck), o magnata do comércio de roupa a retalho que é o equivalente britânico a um Amancio Ortega, por exemplo. McCreadie vai festejar os parabéns e estamos a poucos dias da sua festa megalómana, que o próprio magicou para estrelar nas primeiras páginas dos tablóides: alugou uma praia em Mykonos, construiu uma réplica do coliseu romano, expulsou os refugiados da praia (mais tarde contratou-os para acabar as obras…) e lançou uma festa-Gladiador-related(!). Sim, parece que estamos no mesmo campeonato de uns This is Spinal Tap, quando eles planearam um palco com um Stonehenge gigante… E, tal como esse episódio, também este poderia muito bem ser real.

Michael Winterbottom diverte-se então a regressar constantemente atrás, em flashbacks regulares, para ir contando a história deste self-made man ao longo da vida, como se fosse uma espécie de Zelig. Só que em vez do formato de mockumentário, o estilo de Winterbottom é mais o de reportagem televisiva, algo que até fica bem a esta personagem que vive do tempo de antena. Tal como no seu 24 Hours Party People, o estilo é perfeito para este ambiente de excessos, fraude e esquemas, que inclui o reality show manhoso da filha, os esquemas fraudulentos na gestão das suas empresas ou a ascensão mediática par a par com os escândalos sociais.

O problema de Greed é que, já perto do final, acaba por mudar o foco e torna-se num filme sobre Nick (David Mitchell), o seu biógrafo que o acompanha e que demora tempo a mais para perceber que aquela família é toda ela uma fraude. Michael Winterbottom começa então a encher Greed com uma série de mensagens morais – sobre os refugiados, sobre a exploração da mão-de-obra asiática por parte da indústria do vestuário, etc. -, como se tivesse medo que nós, espectadores, fossemos demasiado burros para não entender o subtexto do filme. Completamente desnecessário e um triste final para um filme que merecia bem mais do que um McBacon, nem que seja para abramos os olhos e deixemos de idolatrar este tipo de gente.

Título: Greed
Realizador: Michael Winterbottom
Ano: 2019

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